CIAV e CIA
O INEM (Instituto Nacional de Emergência Médica) tem o CIAV (Centro de Informação Antivenenos). Sabendo que antiveneno é uma palavra, logo uma unidade vocabular autónoma, a sua sigla não deveria ser CIA?
Obrigado.
O INEM (Instituto Nacional de Emergência Médica) tem o CIAV (Centro de Informação Antivenenos). Sabendo que antiveneno é uma palavra, logo uma unidade vocabular autónoma, a sua sigla não deveria ser CIA?
Obrigado.
Não, a forma em causa não teria de ser necessariamente CIA.
Importa começar por dizer que CIAV (Centro de Informação Antivenenos) não é uma sigla, mas, sim, um acrónimo, porque se lê como se fosse uma palavra com estrutura silábica e, portanto, soa "ciave"1. Se CIAV fosse uma sigla, teria de soletrar-se – "cê i á vê" –, o que não é o caso.
É de salientar, contudo, que o processo de formação dos acrónimos (acronímia) é igual ao das siglas (siglação), conforme se observa na Gramática do Português (Fundação Calouste Gulbenkian, 2013-2020, p. 222):
«Na siglação, combinam-se as iniciais de palavras plenas de um sintagma (cf. AR < Assembleia da República, IRS < imposto sobre o rendimento de pessoas singulares) ou as iniciais dos elementos de palavras complexas (cf. TV < televisão ou ECG <eletrocardiograma). Uma característica importante das siglas (que as distingue dos acrónimos) é o facto de a sua pronúncia ser feita letra a letra. A formação dos acrónimos, por sua vez, é semelhante à das siglas, com a diferença de que os acrónimos têm estrutura silábica, isto é, são pronunciados como uma palavra da língua (cf. OPA < oferta pública de aquisição, IVA < imposto sobre o valor acrescentado, ETAR < estação de tratamento de águas residuais).»
Relativamente a CIAV, embora antiveneno seja uma palavra derivada por prefixação e constitua uma unidade lexical autónoma, isso não implica que, no processo de acronímia, a palavra seja tratada obrigatoriamente como um bloco indivisível. Com efeito, a opção pelas iniciais AV resulta de uma segmentação interna de antivenenos (anti + venenos), permitindo a transparência semântica do termo. Trata-se, portanto, de uma solução que privilegia a legibilidade e a interpretação imediata do conteúdo institucional.
Acresce que a formação de siglas e acrónimos pode atender à necessidade de distinção face a outras abreviações já estabilizadas no uso. Assim, opta-se por CIAV para afastar a possibilidade de CIA, dada a forte associação internacional desta forma a Central Intelligence Agency, os serviços secretos dos EUA. A clareza e a não ambiguidade são, assim, critérios relevantes na fixação destas formas.
De resto, este procedimento não é isolado. Também em casos como ANACOM (Autoridade Nacional de Comunicações), se verifica que o acrónimo não resulta da junção das iniciais de cada nome, mas de uma organização em segmentos significativos (COM correspondente a comunicações). Deste modo, evidencia-se que os acrónimos (com as siglas) podem privilegiar a segmentação de palavras para além da letra inicial .
Atualmente, a formação de siglas e acrónimos em português revela-se, pois, um processo flexível, orientado por critérios de funcionalidade, transparência e uso institucional.
1 O acrónimo CIAV é pronunciado no vídeo de uma campanha do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), "Nem tudo parece o que é" (Youtube, 0:56)