A distinção entre siglas e acrónimos - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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A distinção entre siglas e acrónimos

A minha dúvida refere-se à distinção entre siglas e acrónimos. Li algumas das respostas anteriores, mas não fiquei devidamente esclarecida, uma vez que em certas respostas aquilo que já tinha sido definido como sigla era apresentado como acrónimo, e vice-versa. Compreendo que isto resulta de diferentes interpretações, mas (e digo isto em jeito de desabafo) às vezes é mais subjectiva a interpretação de aspectos gramaticais do que a interpretação de um poema...

Vou colocar a minha dúvida baseada na definição de sigla e acrónimo apresentada no Dicionário Terminológico (DT), uma vez que é ele que servirá de base aos professores no ensino do Português e é para ele que remetem os novos programas do ensino básico, no que diz respeito ao Conhecimento Explícito da Língua.

Sigla — palavra formada através da redução de um grupo de palavras às suas iniciais, as quais são pronunciadas de acordo com a designação de cada letra.

Exs.:

Partido Comunista Português -> PCP;

Partido Social-Democrata -> PSD;

Sporting Clube de Portugal -> SCP.

Acrónimo — palavra formada através da junção de letras ou sílabas iniciais de um grupo de palavras, que se pronuncia como uma palavra só, respeitando, na generalidade, a estrutura silábica da língua.

Exs.:

Fundo de Apoio às Organizações Juvenis -> FAOJ

Liga dos Amigos da Terceira Idade -> LATI

Federação Nacional de Professores -> FENPROF

Assim sendo, palavras como ONU, VIP, INEM não deverão ser consideradas acrónimos e não siglas, como tenho lido?

Não se pronunciam com a designação das letras que as constituem. Não dizemos «ó-êne-u», mas sim «ónu» (ONU); não dizemos «vê-i-pê», mas «vip(e)» (VIP); não dizemos «i-êne-é-ême», mas sim «inéme» (INEM). Esta último respeita, como é dito na definição, «na generalidade, a estrutura silábica da língua portuguesa» e não na totalidade (ou ler-se-ia, «i-nem»), mas por uma questão de bom senso fonológico e para evitar uma sonoridade cacofónica.

É esta a interpretação que faço (e penso que os exemplos de acrónimos dados no DT são esclarecedores), mas continuo a ler interpretações diferentes.

O que fazer ao elaborar materiais de apoio? O que transmitir aos alunos?

Grata pela atenção dispensada!

Sónia Junqueira Criadora de conteúdos Porto, Portugal 62K

1. Partamos então do DT. Se, considerando estritamente o que aí é dito nos verbetes para sigla e acrónimo, perguntar aos seus alunos como se designa a palavra formada pela junção de letras iniciais de uma expressão, terá de aceitar como certas as respostas: «sigla», «acrónimo» e «sigla ou acrónimo».

Vejamos.

É sem dúvida um acrónimo a palavra que integra, total ou parcialmente, sílabas da expressão original:

Frelimo: Frente de Libertação de Moçambique

Sapo: Servidor de Apontadores Portugueses

Mas quando a palavra é formada apenas pelas iniciais de um expressão, a diferença entre sigla e acrónimo está apenas na realização fónica da forma.

Caso seja possível uma pronúncia silabada, temos uma sigla que também é acrónimo. É o caso, tipicamente, das siglas/acrônimos com vogais com possibilidade de assumir a posição de núcleo de sílaba.

Caso a pronúncia silabada não seja possível, no caso de uma sequência exclusiva de consoantes, temos sigla, apenas.

Vai neste sentido o esclarecimento de Margarita Correia e Lúcia San Payo de Lemos, em Inovação Lexical em Português (ed. Colibri, APP, 2005, p. 46):

«Repare-se que aquilo que distingue uma sigla de um acrónimo é apenas a sua concordância/não-concordância com a estrutura silábica da língua em causa. Uma unidade como ONU é uma sigla (porque é formada pela primeira letra de cada uma das palavras que constituem a designação — Organização das Nações Unidas), mas é também um acrónimo (porque a sua estrutura silábica é conforme à estrutura do português). Por seu turno, unidades como CGTP ou UGT (União Geral de Trabalhadores) apenas podem ser consideradas siglas.»

2. Atente-se na forma DGIDC: já ouvi esta forma ser pronunciada como uma única sílaba e já a ouvi soletrada. Nessa altura, classificar DGIDC como uma sigla nunca falha.

 

N. E. - O acronimo ONU é uma palavra aguda (ou oxítona), e não grave como a grafia "ónu", usada pela consulente, pode fazer crer. Diz-se, portanto, "onu", com ó aberto átono e acento tónico na sílaba -nu (transcrição fonética: [ɔˈnu]).

 

CfA Folha,  Boletim da língua portuguesa nas instituições europeias

Ana Martins