«Apertou-me as mãos» (português) vs. «me lavé las manos» (castelhano) - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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«Apertou-me as mãos» (português)
vs. «me lavé las manos» (castelhano)

Estudando espanhol, deparo-me com a construção normativa «me lavé las manos», e ainda, lendo Machado de Assis, deparo-me com a construção «Escobar apertou-me as mãos». Interessante que, no dia a dia, fala-se «apertou (as) minhas mãos» ou «beijou (o) meu rosto», mas então, por causa da construção típica da língua espanhola (sendo ela a norma padrão) e do uso dessa construção na literatura portuguesa, comecei a perceber que também se fala «apertou-me as mãos» ou «beijou-me o rosto» no dia a dia.

Por isso, indago sobre essa construção na língua portuguesa e seus aspectos normativos: é possível? É padrão? Ou ainda, qual é a diferença entre «apertou (a) minha mão» e «apertou-me a mão»?

Agradeço antecipadamente a resposta.

Eric Iago Simões Bacharel em Direito Petrolina, Brasil 342

O uso espanhol que a pergunta começa por apresentar não existe em português:

(1) «Me lavé las manos.»

(2) «Lavei as mãos.»

Em (2), a frase portuguesa não apresenta o pronome me, ficando subentendida a ideia de posse pelo sujeito do enunciado (posse inalienável).

Contudo, é totalmente correta a construção em que ocorre o pronome me como um objeto indireto:

(3) «Apertou-me as mãos. (= apertou as minhas mãos)»

Esta possibilidade observa-se sempre que o sujeito do enunciado e o pronome oblíquo se referem a pessoas diferentes:

(4) «Apertei-te as mãos. (= apertei a ruas mãos)»

(5) «Apertei-lhe as mãos. (=apertei as suas mãos – dele ou dela)»

 

Cf.  A pronominalização com função de dativo em espanhol e em português e Dativo ético e de posse em português

 

Carlos Rocha
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: pronome
Áreas Linguísticas: Discurso/Texto; Semântica; Sintaxe Campos Linguísticos: Deixis