"Abissurdo" – um caso da inserção do i na pronúncia brasileira - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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"Abissurdo"
– um caso da inserção do i na pronúncia brasileira

Não poucas vezes,  ouvi dizer, de brasileiros, “abissurdo” ou inguinorante”, mas  sempre levei estes casos de anaptixe[1] à conta de agramaticalidades  tipicamente brasileiras (tanto quanto  sei, de origem africana ou mesmo angolana).

Quando, porém, ouvi senadores a pronunciarem o impeachment como  “impichiment”, na sessão  do Senado em que foi votada a exoneração da Presidente Dilma Roussef,  perguntei-me se se tratava duma agramaticalidade ou, antes, de um brasileirismo, já enraizado na variedade brasileira do português. Agora, no discurso de tomada de posse de Jair Bolsonaro, ouvi-o dizer “corrupição” em vez de corrupção

Gostava de saber, do Ciberdúvidas, se esta anaptixe é uma agramaticalidade fonética ou é um brasileirismo, já registado como aceite na variedade brasileira do português.

[1 N. E. – O termo anaptixe denomina «[a] epêntese de vogal no interior de um grupo consonantal (p.ex.: latim febrariu > português fevreiro > fevereiro; tramela > taramela; no português informal do Brasil, diz-se peneumonia por pneumonia, adevogado por advogado); suarabácti» (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, 2001). Por epêntese, entende-se a inserção de qualquer som no meio de palavra (português antigo cheo > português contemporâneo cheio; latim stella > português estrela) ou entre palavras (a água > português regional a i água) – Cf. Dicionário Terminológico. Segue- se a resposta da professora brasileira Eliene Zlatkin, a quem agradecemos o contributo.]
 

Miguel Faria de Bastos Advogado Luanda/LIsboa, Angola/Portugal 505

No caso de "abissurdo",  creio tratar-se do  desconhecimento da tonicidade da palavra, acrescido da falta do padrão português: consoante + vogal. O que faz o falante perante a sequência "bs"?  Facilita sua  vida inserindo vogal onde não existe. O mesmo ocorre em "corrupição" em vez de corrupção.

No segundo caso, "inguenorante", acredito que haja  alguma relação com o prefixo negativo in-, usado a todo momento: infeliz, inculto, incapaz, intransigente. Quanto ao n acrescentado, o falante que faz este tipo de "erro" conhece a palavra ignorância, que, possivelmente, também vai pronunciar " inguinorância".

Há inúmeros outros casos, como "adevogado"/ "adivogado" em vez de advogado, "ad(i)vertir", "ob(i)soleto", "impreg(ui)nar", entre tantas outras. A verdade é que falantes brasileiros tem dificuldades em pronunciar sons consonantais sem vogais, seja em português ou em quaisquer outras línguas. Ex: 'strada em português de Portugal passa a ser "istrada" ; 'star (também no português europeu) passa a  "istar".

No que diz respeito ao caso citado em inglês, a tendência é  basear a língua falada pela forma escrita, sempre um equívoco, e  no caso do inglês um suicídio, já que a língua inglesa escrita não sofreu reformas ortográficas ao longo dos tempos, o que causa dificuldades para os próprios nativos, a tal  ponto, que o processo de alfabetização é bem mais longo do que  que entre nós.

Até hoje o velho ditado não é  dispensado  em todos os países de língua inglesa. No português a interpretação oral de cada letra é relativamente clara e constante. No inglês, além de ser pouco clara, possui alta irregularidade, sendo outras vezes muda. O fato é que o inglês, como as demais linguas germânicas, é rico na ocorrência de consoantes e o português brasileiro abundante na ocorrência de vogais e demais combinações de vogais (ditongos, tritongos).

Para terminar,  os problemas acima não ocorrem entre os que tiveram melhor escolaridade, maior acesso à cultura, o que significa uma pequena parcela do povo brasileiro, especialmente da classe política.

 

N. E.  – Resposta alterada em 23/0/2019.

Eliene Zlatkin
Tema: Mudança linguística Classe de Palavras: substantivo
Áreas Linguísticas: Fonética; Léxico Campos Linguísticos: Pronúncia