DÚVIDAS

A pronúncia de labareda

Como se pronuncia a palavra labareda?

Tem E aberto ou E fechado? "Labaréda" ou "labarêda"?

Obrigado.

Resposta

O que os registos da norma-padrão indicam é que em Portugal, a pronúncia da vogal tónica de labareda (ou lavareda) oscila entre o é aberto e ê fechado, enquanto no Brasil a pronúncia será estável, com ê fechado[1]. Na sílaba tónica, que é -re-, a vogal pode ser, portanto, aberta ou fechada, e o plural não regista mudança de timbre na vogal, que continua aberto ou fechado entre falantes de Portugal e fechado entre os do Brasil.

Contudo, relativamente a falares regionais e a variedades da mesma língua, como são o português de Portugal e o português do Brasil, as distinções que existem, sem dúvida, nem sempre são rígidas.

Numa famosa publicação com mais de 100 anos, coordenada pelo grande filólogo português José Leite de Vasconcelos, a Revista Lusitana (vol. XVIII, p. 122), há um registo curioso, relativo a um uso antigo atribuído à região de Viana do Castelo, onde labareda, com ê fechado, significava ou ainda significa «falador» ou, em linguagem mais familiar, «espalha-brasas». O termo também se usava no plural, por exemplo, numa frase como «ele é um labaredas».

Refira-se que, ortograficamente, a vogal e (como a vogal o) não tem geralmente maneira de ser identificada quanto ao grau de abertura ou fechamento em palavras graves, isto é, em palavras acentuadas na penúltima sílaba. É, pois, de notar que labareda pode ter, em Portugal, a vogal e aberta na sílaba tónica – "labarÉda" –, como queda e moeda, mas a variante com e fechado – "labarÊda" – converge com  seda , que tem e fechado como azeda ou vereda2. E, no entanto, todas estas palavras apresentam na escrita a mesma letra e sem qualquer sinal de a vogal ser aberta ou fechada.

Por outras palavras, perante uma palavra que apresente um e na sílaba tónica e não sabendo se essa letra corresponde a um som aberto ou fechado, a solução é muitas vezes consultar um dicionário. Felizmente que, atualmente, já existem alguns que, além de terem indicação escrita da pronúncia recomendada, também têm associado um registo sonoro.

1 Nota – Na sequência de um pedido de esclarecimento do consulente Rodrigo Vasconcelos, de Belo Horizonte, alterei a resposta em 04/06/2026. Convém igualmente assinalar que, para o português de Portugal, recorri aos seguintes dicionários e vocabulários: o Vocabulário da Língua Portuguesa VLP (1966), de Rebelo Gonçalves; a 1:ª edição do Novo Dicionário da Língua Portuguesa – NDLP (1899), de Cândido de Figueiredo; o dicionário de português da Porto Editora na Infopédia; o dicionário Priberam; o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea – DLPC, na sua 1.ª edição, impressa e publicada em 2001 (a versão eletrónica é omissa a este respeito); da Academia das Ciências de Lisboa – ACL; e o Vocabulário Ortográfico do Português –VOP, do CELGA-ILTEC. O NDLP consigna ambas as formas, com é aberto e ê fechado; o VLP de Rebelo Gonçalves e o DLPC da ACL só registam a forma com e aberto; a transcrição da Infopédia apresenta e fechado, mas, no registo áudio associado, ouve-se um e aberto; o Priberam regista um e fechado, tal como a transcrição fonétiva do  VOP relativa às pronúncias padrão e não padrão de Lisboa. Pode, portanto, concluir-se que a pronúncia padrão da vogal tónica de labareda (ou lavareda) varia no português de Portugal, como, aliás, já em 1899 indicava Cândido de Figueiredo, muito embora o poder prescritivo atribuível ao VLP de Rebelo Gonçalves favoreça a forma com e aberto, pronúncia que é também a registada pelo DLPC da ACL e, de maneira ambígua, pela Infopédia. Refira-se ainda que na 2.ª edição (1925) do dicionário de Caldas Aulete (Parceria António Maria Pereira; Lisboa), a indicação de pronúncia é com é aberto; no Dicionário de Rimas (Editorial Domingos Barreira, 1951), do Visconde de Castelões, labareda rima, por exemplo, com queda, moeda e almoeda, cuja terminação apresenta é aberto; e no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, de 1940, bem como  no Vocabulário Ortográfico Resumido de 1947 e no de 1970, a palavra não tem associada a indicação de ê fechado que figura noutras entradas com esse fonema (p. ex., sede, «vontade ou necessidade de beber»). Quanto aos registos correspondentes à pronúncia de labareda no Brasil, os dois grandes dicionários de referência deste país concordam quanto a labareda (ou lavareda) ter ê fechado. O registo do Vocabulário Ortográfico Atualizado da Língua Portuguesa (2012) da Academia das Ciência de Lisboa e da versão eletrónica deste registam labareda com e fechado, convergindo assim com o registo do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras. Esta nota foi atualizada em 05/06/2026 e 07/06/2026.

N. E. (07/06/2026) – O consulente Rodrigo Vasconcelos (Belo Horizonte) partilhou ainda a seguinte achega, que se agradece: «[...] [A] variação [entre timbre aberto e timbre fechado da vogal tónica de labareda] parece remontar pelo menos ao século XVIII, pois João de Moraes Madureira Feijó e Fr. Luís do Monte Carmelo têm recomendações opostas. Feijó, na p. 370 da edição de 1734 da sua Ortografia, ou Arte de Escrever e Pronunciar com Acerto a Língua Portuguesa, traz apenas a pronúncia fechada e, conquanto fale em variação, refere-se apenas àquela entre labareda e lavareda, mas acentua ambas as palavras com o circunflexo: «Labarêda, ou Lavarêda. a châma do fogo, que sobe para cima. Nenhum Auctor dâ etymologîa a esta palavra, e dahi nasce a duvida, se ha de ser Labareda, ou Lavarêda. E quanto a mim, antes diria Levarêda, e Levarêdas, por serem as châmas que se levantaõ, ou elévaõ do fogo em figura pyramidal, como mais sulphûreas, accêsas, e sutîs.» A ausência de menção à pronúncia com é aberto é eloquente, já que, em labrego, por exemplo, disse o autor o seguinte: «Labrêgo, e Labrêga. com accento circumflexo na pronunciaçaõ do e.» Monte Carmelo, na p. 84 da edição de 1767 do seu Compêndio de Ortografia, trouxe labaréda como uma das exceções à regra de que se acentuam com circunflexo na letra e os nomes e advérbios em eda e edo: «13. Regra 2. Os Nomes, e Advérbios em eda, edo, tem Accento circumflexo na Letra E, como Azêda, Grêda , Sêda, Azêdas, Grêdas; Azêdo, Azevêdo, sobrenome e Lugar; Brêdo; Cêdo; Degrêdo, Figueirêdo, sobrenome; Mêdo, isto he, temor; Quêda, Quêdas, vozes antigas, isto he Quiéta, Quiétas; Quêdo, Quêdos, isto he, Quiéto, Quiétos; Roborêdo , sobrenome; Degrêdos, Mêdos, &c. Excéptûam-se Béda, e Cinédo, Nomes proprios;
Lavaréda, ou Labaréda, Méda, e Médo, isto he, mulher, e homem natural de Média; Moéda, Quéda, isto he,
Descenso , ou inclinaçam , ou genio inclinado ; Quéda, Cidade do Reino de Siâm na índia, a que alguns chamam Quedá; e Torpédo , peixe , que também se-châma Tremélga. Os Curiaes também dizem Méda, v. g. de trigo.» A concorrência das duas pronúncias adentrou o século XIX: alguns dicionários apontavam o timbre fechado, como o de Fr. Domingos Vieira, outros, o timbre aberto, como o de Antônio José de Carvalho e João de Deus. Não pude consultar o VLP de Rebelo Gonçalves e, portanto, não sei com que fundamento preteriu o timbre fechado em favor do aberto, mas certamente não foi com apoio na tradição, porque, até onde a vista alcança, tradicional mesmo tem sido a variação, que também se verificava em autores brasileiros do século XIX.» Acrescente-se, relativamente ao registo de labareda em fontes normativas de Portugal, que, mesmo antes da Reforma Ortográfica de 1911Gonçalves Viana consignava na edição de 1909 do seu Vocabulário Ortográfico e Ortoépico da Língua Portuguesa a grafia labareda, a qual parece indicar é aberto da vogal, visto que que o timbre fechado era, na sua proposta anterior à Reforma de 1911, e, depois, já oficialmente, indicado pelo acento circunflexo para evitar a homografia em casos como em bêsta e sêda, hoje, besta e seda, respetivamente, a que se junta cesta, grafia sem tal acento mas com a indicação de a pronúncia do e ser fechada.

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