DÚVIDAS

A impossibilidade de uma preposição introduzir o vocativo

Incitado por uma dúvida provocada pela resposta/justificativa de uma aluna em uma avaliação, desejaria saber se há possibilidade de o vocativo ser precedido por preposição.

A redação da resposta, entre outras coisas, dizia que um termo não era vocativo «porque não era precedido por preposição».

Ao consultar a gramática para dirimir essa dúvida, vi que ao vocativo pode preceder, por vezes, uma interjeição ó, oh, eh (Cunha e Cintra; Cegalla; etc.), mas persistiu minha incerteza quanto a uma regra e/ou proibição absoluta de preposição que antecede vocativo.

Em resumo, é possível dizer que uma preposição nunca antecede vocativo? (pelo fato de vocativo ser sempre dirigido à segunda pessoa do discurso?)

Obrigado.

Resposta

Após consulta à seção sobre o vocativo nas gramáticas dos autores aqui citados, chegamos à conclusão de que o vocativo não pode ser preposicionado.

Segundo o gramático Celso Cunha, o vocativo é um termo de entoação exclamativa que nunca vem subordinado a nenhum outro termo da frase, servindo «apenas para invocar, chamar ou nomear, com ênfase maior ou menor, uma pessoa ou coisa personificada». Corroborando esse ponto da não subordinação, diz o gramático Domingos P. Cegalla que o vocativo «é um termo à parte. Não pertence à estrutura da oração, por isso não se anexa ao sujeito nem ao predicado». E finaliza Bechara com um acréscimo interessante:

«... vê-se que o vocativo pode ser representado por substantivo ou pronome, podendo admitir a presença de expansões (p. ex., de adjuntos adnominais, de orações adjetivas):

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
“Senhor Deus, que após a noite
Mandas a luz do arrebol,
Que vestes a esfarrapada
Com o manto rico do sol” [CAlv.1, 88].»

Além da boa percepção do consulente – a saber: uma preposição nunca antecede o vocativo por ser ele «sempre dirigido à segunda pessoa do discurso» –, o que determina o impedimento da preposição antes desse termo é justamente a função desta classe gramatical na língua: ligar termos ou orações numa relação de subordinação.

Portanto, já que o vocativo nunca vem subordinado a nenhum outro termo, nunca pode ser antecedido de preposição.

Sempre às ordens!

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