A grafia de Centro-Serra (Brasil) - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
A grafia de Centro-Serra (Brasil)

Referindo-se à região [do Brasil], escreve-se: "Centro Serra", "Centro-serra" ou "Centrosserra"?

Conforme a regra, quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento/palavra começa com uma consoante diferente de R ou S, não se utiliza o hífen. Nos casos em que o prefixo termina com vogal e a segunda palavra/elemento começa com R ou S, essas letras são duplicadas e não se utiliza o hífen. Por exemplo, a palavra antissocial é formada pelo prefixo anti e o elemento/palavra social, mas como o prefixo termina em vogal (i) e o segundo elemento começa com S, o S é duplicado, formando assim a palavra antiSSocial. Portanto, seguindo esse raciocínio, deveria ser escrito "Centrosserra".

Mas não é o que encontramos na maioria dos textos – ou a palavra aparece escrita com hífen, "Centro-serra", ou sem hífen, "Centro serra". Entretanto, existe a regra dos encadeamentos vocálicos que poderia ser utilizada para explicar a grafia de centro-serra. Essa regra não fala sobre a utilização de prefixos. Ela estabeleceu que se deve utilizar o hífen para ligar duas ou mais palavras que ocasionalmente se combinam para formar encadeamentos vocálicos. Ex: Rio-Niterói, Rio-São Paulo, Sampa-Sul. Portanto, quando as palavras aglutinadas não formarem um vocábulo, ou seja, uma nova palavra, deve-se utilizar o hífen.

Gostaria muito de tirar essa dúvida.

Larissa Scherer Professora Pelotas, Brasil 69

O caso apresentado é o de um nome próprio que constitui um composto, e não uma palavra prefixada. A hifenização dos compostos não se confunde com as regras enunciadas para os prefixos1.

Se com a denominação em questão se pretende referir uma região que é simultaneamente de serra e se encontra no centro de um território, então, a expressão adequada é Centro-Serra, à semelhança dos casos enumerados no fim da pergunta, os quais, no entanto, são exemplos não de compostos, mas de encadeamentos vocabulares ocasionais (p. ex. «a estrada Rio de Janeiro-Petrópolis»)2. Mesmo assim, atendendo a que Centro-Serra é um nome próprio que parece ter origem num encadeamento vocabular que se cristalizou, um pouco como combinação histórica  Áustria-Hungria, não é descabido apor-lhe um hífen3.

Observe-se que há efetivamente oscilações gráficas na escrita do nome em questão, como se observa nas páginas do sítio eletrónico da Secretaria de Desenvolvimento Económico e Turismo do Estado do Rio Grande do Sul. Contudo, considerando casos de outros geónimos brasileiros formados por composição como Centro-Oeste, a grafia Centro-Serra salienta-se, entre outras variantes, como boa solução, até

 

1 A hifenização de compostos é definida pela Base XV do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 (AO 90). Note-se que a norma brasileira anterior, a do Formulário Ortográfico de 1943, era omissa a este respeito (ver parte XVI, secção 46). Não assim o Acordo Ortográfico de 1945, cuja Base XXXII previa a hifenização dos encadeamentos vocabulares ocasionais, apesar de os não considerar palavras compostas.

2 N.E. (22/10/2019) – Alterou-se a frase de maneira a clarificar o que se entende por «palavras que ocasionalmente se combinam», conforme se lê na Base XXXII do Acordo Ortográfico de 1945, documento que teve plena vigência em Portugal até 2009. Esta maneira de descrever os encadeamentos vocabulares é retomada pelo AO 90, onde o encadeamento incluído na expressão «ponte Rio-Niterói» ou a simples associação de dois topónimos como «Tóquio-Rio de Janeiro» constituem uma associação ocasional, ao que parece (no AO 90 não se explicita uma definição), no sentido em que são sequências formadas por unidades onomásticas autónomas, que marcam elipticamente uma direção («ponte que vai do Rio a Niterói») ou um nexo de coordenação («Tóquio e Rio de Janeiro»).

3 Cf. Base XV, secção 7, do AO 90.

Carlos Rocha
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: nome próprio
Áreas Linguísticas: Morfologia Construcional; Ortografia/Pontuação Campos Linguísticos: Composição; Hifenização