A coordenação num sujeito composto, outra vez - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
A coordenação num sujeito composto, outra vez

Na resposta sobre o tema suprarreferido, afirmou-se:

«c) mas, se articularmos duas orações, sem que estas se encaixem numa frase matriz para aí desempenharem a função de sujeito (p. ex., «Eles cometeram pecados e têm vícios»), não falamos em sujeito composto, porque cada oração tem o seu próprio sujeito, eventualmente indeterminados, apesar de correferentes, como ocorre em «pensa-se e diz-se», cujos sujeitos são indeterminados.»

A frase comentada é a seguinte: «Pensa-se e diz-se que é possível que haja vida noutros planetas.»

Penso que não haja aí sujeitos indeterminados, mas sujeitos oracionais representados pela frase «que é possível», sendo «que haja vida noutros planetas» também sujeito oracional de «é possível».

Trata-se, em meu entender, de um interessante encadeamento de orações com vínculo sintático com «pensa-se» e «diz-se».

Peço ao professor Carlos Rocha a fineza de comentar.

Obrigado.

Fernando Bueno Engenheiro Belo Horizonte, Brasil 3K

Agradeço o comentário do consulente.

A resposta foi reformulada de modo a referir a análise mais tradicional de se como partícula apassivadora. Permito-me, no entanto, lembrar que é também legítimo considerar que o pronome se pode ocorrer como marcador de sujeito indeterminado mesmo com verbos transitivos. Evanildo Bechara, na Moderna Gramática Portuguesa (Rio de Janeiro, Editora Lucerna, 2002, p. 178) refere-se a esta possibilidade:

«[...] o se como índice de indeterminação de sujeito – primitivamente exclusivo em combinações com verbos não acompanhados de objeto direto – estendeu seu papel aos transitivos diretos (onde a interpretação passiva passa a ter uma interpretação pessoal: Vendem-se casas = "alguém tem casas para vender") e de ligação (É-se feliz). A passagem deste emprego da passiva à indeterminação levou o falante a não mais fazer concordância, pois o que era sujeito passou a ser entendido como objeto direto, função que não leva a exigir o acordo do verbo:

Vendem-se casas (= "casas são vendidas") -> Vendem-se casas (= "alguém tem casas para vender") -> Vende-se casas.

"Vende-se casas" e "frita-se ovos" são frases de emprego ainda antiliterário, apesar da já multiplicidade de eventos. A genuína linguagem literária requer vendem-se, fritam-se. Mas ambas as sintaxes estão corretas, e a primeira não é absolutamente, como fica demonstrado, modificação da segunda. São apenas dois estágios diferentes de evolução. Fica também provado o falso testemunho que levantaram à sintaxe francesa, que em verdade nenhuma influência neste particular exerceu sobre nós..." [Martinz de Aguiar, Notas e Estudos de Português, 2.ª ed. Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas].»

De qualquer modo, adotando a análise mais conservadora (a que apenas aceita o se apassivador com verbos transitivos), verifica-se que a frase tem um sujeito simples, por paradoxal que isto possa parecer. Com efeito, a oração «que é possível que haja vida noutros planetas» integra outra completiva na sua estrutura interna, «que haja vida noutros planetas». Note-se, contudo, que a relação entre estas orações, a matriz e a completiva que nela está encaixada, é de subordinação, e não de coordenação; como tal, a sequência por elas constituída não se classifica como sujeito composto.

Na perspetiva segundo a qual a frase apresenta uma construção passiva, só poderíamos falar de sujeito composto oracional se duas orações coordenadas desempenhassem tal função num frase, como em 1:

1. «Diz-se que há água em Marte e que a vida é possível nesse planeta.»

Assinalo, porém, que o estatuto oracional do sujeito de 1 não permite desencadear a concordância, ao contrário do que acontece com grupos nominais: «vendem-se um apartamento e uma garagem».

Carlos Rocha
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: pronome
Campos Linguísticos: Concordância; Orações