DÚVIDAS

A conjunção mas e as vírgulas

Em relação à colocação da vírgula antes da conjunção mas, pergunto se a mesma é obrigatória ou se, por razões estilísticas, a mesma seja dispensável.

A frase que apresento pertence a um texto de Afonso Reis Cabral e não sei se não terá sido descuido/omissão da editora:

«Ele explica-lhe que era o mesmo MAS não morrera na temporada anterior.»

Neste caso, a vírgula deveria constar?

Obrigado.

Resposta

Talvez seja uma gralha, consequência de uma possível distração, não parecendo ter sido intencional. Também não parece configurar uma razão estilística, uma vez que, no mesmo texto, surgem duas frases em que a conjunção coordenativa adversativa mas surge precedida de vírgula: «Depois ele selecciona as séries, mas é ela a dizer que faltava um episódio do thriller da semana passada.» [5.º parágrafo] ou «Agora, repara ele, apareceu de súbito um novo actor, mas ela lembra-se de que a personagem tinha morrido na temporada anterior.» [6.º parágrafo]. Da mesma forma que, para além da frase alvo desta análise, na qual não existe a tal vírgula, existe uma outra em que este sinal de pontuação também está omisso: «Ele acha que a cara é quase igual mas o papel não é o mesmo.» [6.º parágrafo].

Os instrumentos de normalização linguística – gramáticas, prontuários e dicionários – aconselham, de uma forma explícita ou mesmo implicitamente através dos muitos exemplos, o uso da vírgula antes da conjunção coordenativa adversativa mas.

Para o esclarecimento da dúvida em causa, os seguintes filólogos/gramáticos/ linguistas referem o seguinte:

(1) Lindley Cintra e Celso Cunha, na sua Nova Gramática do Português Contemporâneo, 9.ª edição (pp. 642 e 643)

«2. Entre orações, emprega-se a vírgula: […]
2.º) Para separar as orações coordenadas sindéticas, salvo as introduzidas pela conjunção e:
    Não era velho, mas parecia nunca ter sido novo.
            (Sophia de Mello Breyner Andresen, CE, 33.)»

(2) Evanildo Bechara, na sua Moderna Gramática Portuguesa, 39.ª edição, Editora Nova Fronteira (pp. 643-645)

«Vírgula
Emprega-se a vírgula: […]
n) para separar as conjunções e advérbios adversativos […]»

No capítulo 9, sobre a conjunção (pp. 345-357), Evanildo Bechara, a propósito das conjunções adversativas (p. 348), apresenta o seguinte exemplo: «Acabou-se o tempo das ressurreições, mas continua o das insurreições» [MM].»

(3) Maria Helena de Moura Neves, no seu Guia de Uso do Português – Confrontando regras e usos, a propósito do «Uso da vírgula» (pp. 787-791) regista o seguinte na pág. 789:

«4.3. Na coordenação adversativa.

Em geral a conjunção mas vem precedida por vírgula, especialmente quando há uma pausa marcada, nesse ponto do enunciado. * Vocês servem mal, mas a comida é ótima! (A)»

A mesma linguista, na sua Gramática de Usos do Português (2.ª edição atualizada conforme o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, Editora Unesp), no seu longo capítulo sobre “As Construções Adversativas – A Coordenação com mas” (pp. 755-770), apresenta uma série de exemplos, todos com vírgula antes desta conjunção coordenativa, sempre que iniciam uma oração [coordenada adversativa].

(3) Gabriela Matos e Eduardo Buzaglo Paiva Raposo, no capítulo 35, “Estruturas de Coordenação”, na Gramática do Português, 2013, Calouste Gulbenkian (pp. 643-645), a propósito da coordenação adversativa, sem se referirem objetivamente ao uso da vírgula, sugerem uma série de exemplos em que a vírgula surge grafada antes da conjunção coordenativa adversativa mas (quando esta introduz uma oração coordenada adversativa).

(4) Maria Rosa Costa (A Pontuação, Porto Editora, pp. 69 e 70), a propósito do uso da vírgula, esclarece:

«1. Orações coordenadas separam-se por vírgula. As conjunções coordenativas e, mas, ou, nem são precedidas por vírgula sempre que introduzem uma oração.»

Curiosamente, Gabriela Matos, na Gramática da Língua Portuguesa (Maria Helena Mira Mateus et alii, 6.ª edição, 2003, Caminho), é a autora do capítulo 14 ("Estruturas de coordenação") e, nos exemplos apresentados com a conjunção coordenativa adversativa mas, não sugere um único em que se use a vírgula:

Pág. 567
«(31) Os bilhetes custaram caro mas o espetáculo mereceu a pena.»
Pág. 570
«(45) (b) Eles não leram o jornal [mas (também) não viram o noticiário na televisão]. 
«(48 (a) [O calor  começa a fazer-se sentir] [mas as férias ainda vêm longe].»

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