DÚVIDAS

Sociais-democratas vs. social-democratas, de novo
Segundo José Neves Henriques, «Deve-se dizer sociais-democratas, porque se trata de democratas que são sociais. Os "democratas que são social" não dá sentido.» (Ciberdúvidas, sem data). Só umas observaçõezitas:   1. A bem do pluralismo, há quem defenda o plural "social-democratas" ou, melhor, "socialdemocratas", inclusive entre os ortodoxos (do ponto de vista gramatical) lusitanos. Por exemplo, José Pedro Machado.   2. Ao que tudo indica, o vocábulo procede do alemão "sozialdemokratie" e respectivas variantes. Ora, aquele "sozial/social" nada tem que ver com o "social/sociável" aventado por José Neves Henriques, antes equivale a "socialismo/socialista". A "socialdemocracia", portanto, não é "*democracia social", mas "socialismo democrático". Isto, claro, no plano dos conceitos. Quanto às pessoas, haverá certamente socialdemocratas sociais ou sociáveis a par de insociáveis e mesmo associais.   3. No Brasil, o plural correntemente usado é social-democratas. Nesse país existe o partido político PSDB, por sinal o do Presidente, cujo nome oficial é assim grafado: Partido da Social Democracia Brasileira.
As origens da troca do [v] pelo [b]
A respeito da consulta sobre o fenómeno da chamada troca do /v/ pelo /b/, gostaria de contribuir outro ponto de vista. A consideração deste fenómeno fonético como "dialectal" vem do facto de isto acontecer actualmente apenas na região norte de Portugal e nos dialectos galegos; no entanto, na maior parte do país e, portanto, no português padrão actual, não acontece. Isto leva à consideração de que são os nortenhos os que «falam esquisito» e se afastam da norma. Mas isto é o mesmo que dizer que a situação "original" do português foi a diferenciação dos fonemas /v/ e /b/. Não obstante, a língua portuguesa tem a sua origem exactamente no território onde actualmente esta diferenciação não existe (Galiza e Norte de Portugal) e talvez nunca existisse. A troca destes sons tem origem no latim vulgar, no qual se produz uma confusão dos fonemas [β], que é um alófono fricativo bilabial de [b] quando intervocálica, e [w], fonema semiconsoante que era escrito <v> ou <u> e pronunciado como o <w> do inglês. Este fenómeno é conhecido como betacismo. A ideia mais estendida é que, perante esta confusão, as línguas românicas tiveram soluções diferentes, uma das quais é a criação duma fricativa labiodental, /v/. Nas línguas galo-românicas ou itálicas parece que foi assim, e às vezes alguns consideram que também aconteceu isto no "português meridional", mas não nos dialectos do Norte. Acho totalmente errado dizer que isto é influência do espanhol. Mas o caso do português tem de ser necessariamente diferente do do galo-românico, porque esse "português meridional" não é mais do que a evolução duma língua que já se tinha formado no Norte e que ainda hoje não tem o fonema labiodental /v/ (dialectos galegos e dialectos portugueses setentrionais). Portanto, a aparição do fonema /v/ em português parece mais um fenómeno tardio acontecido já dentro da língua portuguesa do que uma evolução directa da situação do latim vulgar, como poderia ter acontecido nas línguas galo-românicas ou itálicas. Portanto, poderia ter acontecido que o verdadeiramente dialectal na origem da língua portuguesa fosse a pronúncia fricativa do /v/, embora se tenha estendido depois desde os dialectos centro-meridionais portugueses, conformando finalmente uma característica do português padrão ou standard. Ninguém possui toda a verdade. Obrigado.
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