DÚVIDAS

A palavra "assemblagem"
Foi-me enviado, como material de referência para uma tradução, um documento onde surge a palavra "assemblagem". Não conhecendo a palavra, consultei dicionários, mas não a encontrei. Em contrapartida, surge em muitos textos técnicos na Internet. No documento em questão, é referido que «A assemblagem é o processo de reunião num só ficheiro de todas as imagens...». Será que poderei utilizar "assemblagem" sem incorrer em erro? Grata, desde já, pelo vosso esclarecimento.
Os dias da semana com ou sem artigo
Gostava que me indicassem quando é que devemos colocar o artigo antes do dia da semana e quando não devemos. Julgo que em certas situações essa colocação fica ao critério do falante, mas noutras é determinada por regras gramaticais mais rígidas. Gostava que comentassem também as seguintes frases, no que diz respeito à presença/ausência do artigo/determinante antes do dia da semana: "Eu não vou ao cinema desde segunda-feira."; "Eu não vou ao cinema desde a segunda-feira."; "A segunda-feira é o primeiro dia da semana."; "Segunda-feira é o primeiro dia da semana."; "Quinta-feira vou à escola."; "Na (em+a) quinta-feira vou à escola." Desde já fico grato pela ajuda prestada.
Se calhar
Sou estudante do curso de Letras e desenvolvo um trabalho de pesquisa sobre as orações subordinadas condicionais no português europeu escrito. Analiso textos das principais revistas e jornais portugueses. Segundo as regras ortográficas brasileiras, as orações subordinadas adverbiais quando antepostas à oração principal devem vir, obrigatoriamente, separadas por vírgulas. No entanto, nos textos que analiso, encontro freqüentemente orações subordinadas adverbiais condicionais antepostas à oração principal, não separadas por vírgulas, principalmente quando essa oração subordinada adverbial condicional é "se calhar". Gostaria de saber se, segundo as regras ortográficas portuguesas, orações subordinadas condicionais antepostas à oração principal são, obrigatoriamente, separadas por vírgulas. E quais os significados de "se calhar"?
A gente vamos?
Parece que há quem pense que a língua é feita de ou sim ou sopas. Esta reflexão me surgiu ao notar a maneira algo dogmática e facilista como Susana Correia responde em 17/02/2003, ao asseverar que «Esta forma, semanticamente equivalente a «nós», em termos sintácticos, porém, não funciona da mesma forma, pois o correcto é dizer a gente vai e não "a gente vamos" ». As dúvidas da língua também têm uma história. Gostaria de citar neste contexto, pelo seu valor didáctico, um estudioso que, embora escrevendo há muitos anos, talvez não fosse má ideia ser rememorado pelos respondedores do Ciberdúvidas. Refiro-me a Botelho de Amaral, por sinal patrono de um dos parceiros do sítio. Relativamente a muitas das questões aqui recorrentes, já ele disse, e melhor, o que de essencial havia para dizer. Leia-se e medite-se, ao menos a título de recapitulação: «Epifânio Dias poderá resumir o que pensa a Gramática a respeito da concordância do predicado da expressão colectiva "a gente". Ensina o grande Mestre, na fundamental Sintaxe Histórica Portuguesa, § 17 e): «Ligar um predicado do plural a uma simples palavra de significação colectiva, que não tem, clara nem subentendida, uma determinação partitiva ou de género é irregularidade que se encontra por exemplo em: Se esta gente que busca outro Hemisfério, /Cuja valia e obras tanto amaste, /Não queres que padeçam vitupério... (Lus. I, 38). Semelhante prática também em latim era irregularidade: Madv. §215, a, obs. Obs. O povo liga frequentemente a "gente" com o valor de nós o predicado no plural da 1.ª pessoa.» Ora, eu não irei aqui repetir o que escrevi noutros trabalhos, onde chamei a atenção para a manutenção desta constructio ad sensum na língua literária posterior a Camões, como provei citando Herculano e Camilo. Também não acho que valha a pena oferecer agora à consideração dos nossos gramáticos os muitos exemplos literários com que poderia reforçar os que já dei. Escolherei apenas alguns passos que ilustrem o que penso a respeito da concordância do colectivo. Desde já afirmo que estou em desacordo com o que se tem escrito a criticar ou a condenar a pluralização do predicado em jogo sintáctico com um colectivo absoluto. Sou de opinião que as gramáticas não devem continuar a ensinar que o emprego no plural de verbo referido a colectivo no singular representa irregularidade para não imitar. Se se desse o caso de tal pseudo-irregularidade apenas ocorrer raramente num ou noutro clássico; se se desse o caso de a tendência geral e lógica ser para a singularização, ainda o conselho de não imitar essa concordância clássica se poderia aceitar. Todavia, a verdade é que não se trata de casos de construção raros, ou desaparecidos; a verdade é que a tendência é mais para a concordância pela ideia do que pela palavra; a verdade é que a lógica se não opõe à pseudo-irregularidade; e, ainda, a verdade é que o povo legitima a sintaxe repelida. Quando o povo diz "a gente vamos", não erra. Não errou Camilo, quando redigiu: "Vê-se uma menina apeada no Marão, emprestando-lhe a gente o seu cavalo e mais ao pai, vamos até Braga com eles, achamo-la bonita..." (O Santo da Montanha, cap. XVI). Não se deve descobrir "irregularidade" em Júlio Dinis, quando escreveu: "muita gente há que nunca na vida sentiu os tais vagos e erráticos sintomas, a que me refiro, e que contudo amam ou amaram deveras." (As Pupilas do Senhor Reitor, cap. VII). Pode imitar-se Camilo nesta redacção: "O povo seguia-o e adiantava-se, para o verem passar, do cabeço dos outeiros." (Ibidem, capítulo XXXIV). Protestará a lógica? Pedirei aos lógicos a serenidade de repararem nisto: Não só o latim mas ainda outras línguas tiveram, e têm, construções dessas, consideradas regulares. Ora, não é ilógico o que em qualquer língua concorda com a ideia que se quer expressar. Se na palavra "turba" há a ideia de mais de uma pessoa, a lógica não deve protestar contra o latim - Turba ruunt. Se a palavra inglesa "multitude" encerra a ideia de pluralidade, um inglês não é ilógico ao dizer – The multitude are on our side. Logo, o nosso povo, também não será ilógico ao dizer "a gente vamos", se com a gente significar nós. Portanto, nem Camilo nem Herculano nem Júlio Dinis nem nenhum escritor cairá em irregularidade, ou em ilogismo, se guiar a concordância do colectivo principalmente pela ideia de singularidade ou de pluralidade que lhe dominar a mente.» (Vasco Botelho de Amaral, Glossário de Dificuldades do Idioma Português, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1947.)
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