DÚVIDAS

«Apertou-me as mãos» (português)
vs. «me lavé las manos» (castelhano)
Estudando espanhol, deparo-me com a construção normativa «me lavé las manos», e ainda, lendo Machado de Assis, deparo-me com a construção «Escobar apertou-me as mãos». Interessante que, no dia a dia, fala-se «apertou (as) minhas mãos» ou «beijou (o) meu rosto», mas então, por causa da construção típica da língua espanhola (sendo ela a norma padrão) e do uso dessa construção na literatura portuguesa, comecei a perceber que também se fala «apertou-me as mãos» ou «beijou-me o rosto» no dia a dia. Por isso, indago sobre essa construção na língua portuguesa e seus aspectos normativos: é possível? É padrão? Ou ainda, qual é a diferença entre «apertou (a) minha mão» e «apertou-me a mão»? Agradeço antecipadamente a resposta.
O topónimo alentejano (serra de) Ossa
Atualmente, encontro-me a fazer um trabalho sobre a toponímia da freguesia de Évora Monte [no concelho de Estremoz]. Um dos desafios passa pela pesquisa do étimo de algumas palavras, como Ossa, que dá nome à serra onde Évora Monte se situa. [...] Creio, de acordo com as pesquisas que já fiz, que é uma palavra latina, que provavelmente deriva da palavra osso. É o que tenho, mas estou na esperança que me possam adiantar mais alguma informação. Obrigada pela atenção dispensada.
Paradoxo vs. oxímoro
Agradecia que, se possível, me pudessem esclarecer quanto à diferença entre oxímoro e paradoxo. O que eu achava que sabia: a antítese apresenta uma oposição entre dois termos sem contradição lógica e o paradoxo ou oxímoro combinam essa mesma oposição com uma contradição lógica evidente. Ou seja, nunca distingui paradoxo de oxímoro ou, se quisermos, encarei sempre o oxímoro como outra palavra, mais apropriada em contexto literário ou estilístico para o termo paradoxo, este mais filosófico e abrangente. Mas eis então o que consta no dicionário terminológico e que me sobressaltou: “Oxímoro: Figura retórica de pensamento que associa duas palavras com significados logicamente opostos ou incompatíveis. Tem afinidades com o paradoxo e com a antítese, mas, enquanto esta figura encerra uma oposição lógico-semântica, o oxímoro é uma associação de palavras contrária à lógica. “Aquela triste e leda madrugada”“ (Camões). Paradoxo: Figura retórica de pensamento que consiste em associar construções semânticas que aparentemente são contraditórias, irreconciliáveis e absurdas, mas que podem iluminar, de modo inédito e surpreendente, o significado do real e da vida. “Muito estranho é ver as pontes / por sob os rios correr / mais ainda ouvir as fontes / sua própria água sorver” (Manuel Alegre).” Ora, fiquei confuso. Pareceu-me que o critério de distinção é obscuro e, nessa medida, concentrei-me nos aspetos formais da distinção, procurando alguma iluminação: o oxímoro referir-se-ia “à oposição de “palavras”, enquanto o paradoxo sinalizaria a oposição entre “construções semânticas”. Isto significaria que em frases como “na sala reinava um silêncio ensurdecedor” estaríamos perante um oximoro, enquanto noutras construções como “na sala os miúdos estavam tão calados que se faziam ouvir de forma ensurdecedora”, já se exprimiria um paradoxo? Estranhei, pois, nesse sentido, podemos definir oxímoro como uma versão condensada do paradoxo e o paradoxo como um desdobramento ou expansão do oxímoro, o que me parece curto para distingui-los como recursos expressivos. Não satisfeito, revisitei algumas publicações do Ciberdúvidas que, na sua maioria, estão de acordo com a minha intuição inicial (oxímoro e paradoxo são termos intercambiáveis no contexto das figuras de estilo). A explicação dominante é que o oxímoro constitui uma espécie de versão estilística ou literária do paradoxo. Assim, por exemplo “andar sem sair do lugar” é um oxímoro ou paradoxo literário, “hipocrisia tão santa” (apesar da condensação) é considerado um paradoxo, sendo que, noutra publicação, oxímoro é considerado apenas um «aproveitamento estilístico de um paradoxo». Continuei a minha busca e consultei quatro gramáticas, tendo notado que uma delas (Cristina Serôdio, Dulce Pereira, Esperança Cardeira e Isabel Falé, Nova Gramática didática de português, conforme o dicionário terminológico, Santillana, 2011, pg 300) apenas inclui o oxímoro, considerando-o uma figura retórica que expressa um paradoxo (portanto, não há distinção), sendo que nas outras aparecem como recursos expressivos distintos, essencialmente baseadas na tal distinção palavras/frases, seja oposição lógica entre palavras (“choro e rio”) versus oposição lógica entre construções semânticas (“dói e não se sente”) (M.ª Carmo Azevedo Lopes et al. Da Comunicação à Expressão. Gramática Prática de Português, Raiz editora. 2022, pag 424/425 –), ou na oposição lógica entre termos (“um grito de silêncio”) versus oposição lógica entre construções semânticas (“tornar o fogo frio”) (Vasco Moreira e Hilário Pimenta, Gramática de Português, Porto Editora, 2017, pg 293/294), ou ainda na oposição lógica entre palavras (“disseram o indizível”) versus oposição lógica entre frases (Zacarias Santos Nascimento e Maria do Céu Vieira Lopes, Domínios. Gramática da Língua Portuguesa, Plátano Editora, 2011, pg 338/339 - note-se que aqui a terminologia usada na distinção concetual é a mesma que a do DT). Concluindo, não descortino nenhuma diferença semântica entre as duas figuras de estilo nem na definição do DT nem nas das diversas gramáticas, mas apenas em algumas uma diferença formal (distinção palavras/frases). O problema é que o dicionário terminológico opera a distinção. Independentemente de considerarmos a fundamentação mais ou menos arrazoada, importaria perceber os motivos que levam o DT a fazê-lo, de modo a compreendermos o critério operativo em exercícios concretos. Agradecendo antecipadamente, gostaria da vossa ajuda para, parafraseando a definição de paradoxo do DT, nos iluminarmos, surpreendentemente ou não, sobre o verdadeiro alcance desta distinção.
Entrega do Prémio João Carreira Bom
na segunda-feira, 27 de Março
1. A cerimónia de entrega do Prémio João Carreira Bom 2005 ao jornalista e escritor Baptista-Bastos realiza-se nesta segunda-feira, dia 27, na sede da Vodafone, em Lisboa, com a presença do seu presidente, António Carrapatoso. A Vodafone, como se sabe, é a entidade patrocinadora deste galardão, único na imprensa portuguesa, em homenagem ao co-fundador do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, João Carreira Bom. 2. Além das Respostas de Hoje, destacamos outras que pusemos em linha na semana que finda: – Os particípios corto e cortado – Vocativo dif. de apóstrofe – Maiúsculas: critérios editoriais – A palavra inverdade – Colocação de pronomes oblíquos átonos com locuções verbais – A definição de nódulo sólido hipoecogénico 3. A propósito do recém-publicado livro Gente Famosa Continua a Dar Pontapés na Gramática – Manual de Erros e Correcções de Linguagem, de Lauro Portugal (Roma Editora, 2006), inserimos na secção O Português na 1.ª pessoa um texto do jornalista Francisco Belard, publicado originalmente no caderno "Actual" do semanário "Expresso". 4. Sobre o programa Páginas de Português e a recepção dos canais de televisão portugueses na Galiza, sugerimos ainda a leitura das nossas Notícias Lusófonas. 5. Por último, a forma da palavra câmara e a confusão de fobia com gosto e preferência são os tópicos abordados no novo Pelourinho, da autoria de Maria Regina Rocha. Esperando termos contribuído para um melhor conhecimento desta nossa Língua Portuguesa, ficamos a aguardar mais perguntas para a próxima semana.
A origem do topónimo Burguel (Algarve)
Queria aprofundar a origem e significado da palavra Burguel. Existe um topónimo em São Brás de Alportel, Pátio do Burguel, atribuído por deliberação camarária de 27 de Março de 2007, na Acta n.º 8/2007. Contudo, é topónimo muito antigo, visto que já vem referenciado em sessão camarária de 15 de Setembro de 1916, como Rua do Burguel (actualmente já não existe este topónimo). Muito obrigado. [O consulente segue a antiga ortografia.]
ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa