DÚVIDAS

Concordância: «sua obra será sons»
Na frase «Sua obra será sons que se ouvem no papel», que se encontra na tradução de uma obra literária, apontaram um incorreção na concordância verbal, porque o verbo ser deveria concordar com «sons» e não com «obra». É a única concordância possível? Existem bons gramáticos que apontam como correta a concordância com o sujeito nesse caso? Podem nos ajudar com essa questão, por favor?
Coordenou / coordenara
No seguinte período do obituário de António Houaiss, que o Ciberdúvidas transcreveu do diário português Público, o emprego de uma forma verbal faz-me hesitar. Cito: «Foi sepultado ontem (8/3/99), no Mausoléu da Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, o filólogo António Houaiss, que coordenou, no Brasil, as negociações que geraram a polémica proposta de acordo de unificação ortográfica da língua portuguesa.» Não seria melhor se empregássemos o pretérito mais-que-perfeito (coordenara, em vez de coordenou)? Como está, em idêntico registo de tempo, António Houaiss foi sujeito de duas acções que, na realidade, se verificaram, e tinham de verificar, em dois períodos distintos: a coordenação das negociações e a sua própria morte. Agradeço o esclarecimento.
Associação de palavras gramaticais: «com que»
Entro em contato para sanar uma dúvida que me acompanha há algum tempo. Trata-se da locução «com que». A construção completa é a seguinte: «Lembro com que sentimento de encanto folheava o caderno que um vizinho me emprestara, contendo as lições de um quase nada daquela língua que ele aprendera quando seminarista.» (Extraído do prefácio da tradução de Irineu Bicudo de Os Elementos de Euclides.) Para a análise, apenas a primeira oração é importante: «Lembro com que sentimento de encanto folheava o caderno que um vizinho me emprestara.» Minha pergunta é: o que significa exatamente esse «com que» nesse contexto? Como parafrasear essa oração? Seria esse um caso de anástrofe – isto é, uma passagem de «Lembro que, com sentimento de encanto, folheava o caderno que um vizinho me emprestara» para «Lembro com que sentimento de encanto folheava o caderno que um vizinho me emprestara»? Tenho, porém, fortes dúvidas, porque em minhas pesquisas encontrei outro uso de «com que» que não parece decorrer de uma inversão: «Mas, com que sentimento inesperado fui surpreendido pela visão quando cheguei diante dela! Uma impressão total e grandiosa preencheu a minha alma, impressão que eu certamente pude saborear e desfrutar, mas não conhecer e esclarecer, porque consistia em milhares de particularidades harmoniosas entre si.”* (Excerto de Escritos sobre Arte, Johann Wolfgang Goethe, tradução de Marco Aurélio Werle, 2008, 2.ª edição.) Caso seja possível, agradeço se puderem indicar referências sobre essa locução «com que» e seu funcionamento sintático.
ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa