DÚVIDAS

«Ir a»/«Ir para» casa
A dúvida que vos coloco surgiu no âmbito de uma aula de português a estrangeiros e foi colocada pelos alunos. Quando usamos o verbo ir seguido da preposição a, construção usada para exprimir curta duração temporal de uma acção, algumas vezes fazemos a contracção da preposição com os artigos definidos que a seguem, mas outras vezes não. Ex.: 1– Vou a casa buscar um livro. (e não «Vou à casa buscar um livro») 2 – Vou ao restaurante. (e não «Vou a restaurante») O mesmo sucede com a construção verbo ir seguido da preposição para, usada para exprimir longa duração temporal de uma determinada acção, mas neste caso não se põe a questão da contracção com a preposição, mas a utilização ou não do artigo. Ex.: 1 – Vou para casa (e não «Vou para a casa»; podendo no entanto esta última ser utilizada, se referirmos a quem pertence a casa) 2 – Vou para o quiosque (e não «Vou para quiosque») A não contracção/supressão do artigo verifica-se sempre que há um substantivo de género feminino depois da preposição, mas não com todos os substantivos deste género, o que invalida a formulação de uma possível regra que obrigasse a esta alteração no caso de um substantivo ser de género feminino. Ex.: 1 – Vou para a praia. 2 – Vou à praia. São dois exemplos perfeitamente correctos que contrariam os exemplos dados anteriormente. Gostaria então, se possível, de saber qual é a regra para a supressão/não contracção do artigo aquando do uso destas construções. Aplica-se só a determinados substantivos que por acaso são de género feminino? Há uma lista desses substantivos? Também existem casos com o género masculino? Muito obrigada!
Ditongos da língua
Haverá algum conhecimento da verdadeira quantidade dos ditongos da língua portuguesa? Segundo a informacão tirada das vossas páginas, da www.orbis latinus, da "famosa" gramática do português contemporâneo por Celso Cunha e Lindley Cintra, e de outras gramáticas de menor conhecimento, as seguintes palavras formam ditongo diferente: PAI, BAILAR, HERÓI, DOIS, ABENCOE, SOU, MAGOA, DIREITA, HOTÉIS,FUI, AZUIS, VÁRIO, ÁRDUO, CAUSA, AUTOR, CÉU, EU, EUROPA, RIU, TIA, PIADA, VITÓRIA, PIEDADE, CURIOSA, CURIOSO, ENVIAMOS, DIETA, ESPÉCIE, VIÚVA, SUAR, SUAVIDADE, SUECO, DUETO, TÉNUE, JUIZ, QUOTA, AQUOSO, SÊMEA, ÁUREO, MÁGOA, LICÃO, ESTUDAM, PÕE, MÃE, BEM, MUITO, QUANDO, TRASEUNTE, SUTIÃ, PACIENTE, BIOMBO, TRIUNFO, CINQUENTA, QUINQUÉNIO, o que perfaz um total de 54 ditongos, se na realidade a língua portuguesa tem estes ditongos todos, porque é que os gramáticos não os aceitam como pertencentes à nossa língua? Obrigado.
O “ne” japonês e o “né” português
Recentemente, ouvi um conhecido humorista e apresentador brasileiro dizer, em seu programa televisivo de entrevistas, que a palavra "né", usada sempre como interrogação no final de frases, às vezes inutilmente, mais por vício de linguagem, não havia ainda sido incluída em nenhum dicionário. Fiquei intrigado. Procurei em alguns dicionários, e, deveras, o sobredito vocábulo não se achava registrado em nenhum deles. Sempre achei que "né" era uma contração do advérbio não e da forma verbal é. Sendo, portanto, o mesmo que "não é?". Vejam como deve ser isso mesmo: "Tu trabalhas muito, né?" / "Tu trabalhas muito, não é?” Estou equivocado? Contudo, há mais tempo ainda esse vocábulo já me havia deixado com "a pulga atrás da orelha". Explico-me. Aqui na minha cidade, Campo Grande, capital do Estado de Mato Grosso do sul, existe, faz quase um século, uma numerosa colônia de japoneses, principalmente dos de Oquinava. De sorte que, em várias ocasiões, tive oportunidade de os ouvir falar em japonês. E também eles, falando nesse idioma, pronunciavam freqüentemente a palavra "né", em final de frase, com um sentido que me parecia igual àquele do "né" português. Não entendia como uma língua não aparentada ao nosso idioma, poderia ter uma palavra igual à nossa e com o mesmo sentido. Depois, fiquei sabendo que os portugueses foram os primeiros europeus a chegarem ao Japão, tendo permanecido por lá um bom tempo, a ponto de várias palavras da língua portuguesa terem sido incorporadas ao léxico nipônico. Um bom exemplo disso foi o vocábulo obrigado que, na "Terra do Sol Nascente", virou "arigatô". Um outro é "tempurá", nome de uma iguaria da culinária japonesa, que vem de tempero, termo nosso. Então, fiquei imaginando se o "né" japonês nada mais seria que o "né" do nosso idioma adquirido pela língua japonesa. Sobre todo este assunto, V.Sas. poder-me-iam dizer alguma coisa? Muito obrigado.
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