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Cerca de

«Cerca de 146 detidos! A coisa é grave. Além deles, há 52 pessoas feridas! Portanto, os detidos não são pessoas», comenta o antigo diretor da agência de notícias Lusa, na coluna que assina às sextas-feiras no diário português i, sobre o mau uso da língua nos media portugueses.

 

Perante as dificuldades do jornalista no cálculo de números exatos, a língua portuguesa criou a expressão «cerca de». A ela recorreu o Público: «Cerca de 146 manifestantes foram detidos e 52 pessoas ficaram feridas em confrontos entre radicais kosovares de origem albanesa e a polícia do Kosovo».

Cerca de 146 detidos! A coisa é grave. Além deles, há 52 pessoas feridas! Portanto, os detidos não são pessoas. Ou entre eles figuram pessoas e não-pessoas, estas últimas, apesar da desumana condição, a tentar exercer o direito inalienável à manifestação. Talvez se tratasse de calmos e dóceis animais domésticos, habituados a acompanhar os humanos? E o que poderiam ter feito para serem vistos como desordeiros com direito à prisão? A notícia não o diz.

Vivi no Kosovo cerca de 26 meses, 11 dias, 15 horas e 36 minutos. Presenciei manifestações, vi mortos, feridos e detidos, mas nunca soube de uma manifestação que envolvesse radicais albaneses e não-pessoas. O que me faz pensar que, apesar dos pesares, a notícia constitui um jubiloso sinal dos ares de abertura e vanguardismo que varrem a região, onde pessoas e não-pessoas partilham preocupações e manifestações, mas onde apenas as pessoas ficam feridas. Fica demonstrado um grande respeito pelas não-pessoas, de que eu e o autor da notícia nos orgulhamos.

Fonte

In jornal i, de 03 de fevereiro de 2012, na crónica semanal do autor, Ponto do i, que assinala alguns erros na escrita jornalística, em Portugal.

Sobre o autor

Jornalista português nascido no Brasil, é licenciado em Filologia Românica (Faculdade de Letras de Lisboa) onde lecionou Introdução aos Estudos Linguísticos, Sintaxe e Semântica do Português. Foi diretor de Informação das agências noticiosas Anop e NP, chefiou os serviços de comunicação das fundações Gulbenkian e Luso-Americana para o Desenvolvimento. Foi chefe de Informação (PIO) das missões de paz das Nações Unidas em Angola, Timor-Leste, Kosovo e Burundi. Foi diretor-geral da Leya em Angola.