A “smsização” da língua - Pelourinho - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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A “smsização” da língua

«Depois do quase total desaparecimento da prosa por assim dizer jornalística (e “jornalística” é o pior que se pode dizer de uma prosa) do ponto e vírgula, das perifrásticas, dos tempos composto e, de um modo geral, de tudo o que vá além do pretérito perfeito e do modo indicativo (sobrevivem ainda, penosamente, uma ou outra incursão no condicional ou no futuro), parece que a “smsização” da língua chegou aos sinais de pontuação.»

 

Anda por aí uma excitada campanha (principalmente na blogosfera, mas também já a vi num jornal) contra o ponto de exclamação, do qual se diz o que Mafoma não disse do toucinho. Depois do quase total desaparecimento da prosa por assim dizer jornalística (e “jornalística” é o pior que se pode dizer de uma prosa) do ponto e vírgula, das perifrásticas, dos tempos composto e, de um modo geral, de tudo o que vá além do pretérito perfeito e do modo indicativo (sobrevivem ainda, penosamente, uma ou outra incursão no condicional ou no futuro), parece que a “smsização” da língua chegou aos sinais de pontuação, não tarda substituídos todos por animações e emotions.

O que vinga é o modelo “jornalístico” dos períodos (para não dizer igualmente das ideias) telegráficos e facilmente digestíveis, para o que bastam os pontos finais e uma ou outra desamparada vírgula. E temamos também por elas, pelas vírgula, porque, se no caso do pobre ponto de exclamação o motivo é o seu mau uso ou o seu abuso, basta ver os maus tratos que as vírgulas sofrem hoje em jornais e blogues para não lhes augurar luzido futuro.

Fonte

crónica publicada originalmente no "Jornal de Notícias" de 3 de agosto de 2006, transcrita do livro do autor "Por Outras Palavra & Mais Crónicas de Jornal (Modo de Ler – Editores e Livreiros, Porto, 2010). Manteve-se a grafia anterior ao Acordo Ortográfico.

Sobre o autor

Manuel António Pina (Sabugal, 1943 – Porto, 2012), licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, foi um jornalista e escritor português. Trabalhou, enquanto jornalista, no Jornal de Notícias e na revista Notícias Magazine. Enquanto escritor dedicou-se essencialmente à poesia Cuidados intensivos (1994) e Todas as palavras (2012) e à literatura infanto-juvenil O país das pessoas de pernas para o ar (1973) e O cavalinho de pau do Menino Jesus (2004). No entanto, também são da sua autoria peças de teatro História do sábio fechado na sua biblioteca (2009), obras de ficção Os papéis de K. (2003) e crónicas Porto, modo de dizer (2002).