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Contra Corvos de Elisa Costa Pinto – o esplendor da Arte como resistência

Breve nota de leitura

Contra Corvos, de Elisa Costa Pinto, recentemente publicado pela The Poets and Dragons Society, evidencia uma notável e rara maturidade poética, materializada numa obra que evoca o esplendor da Arte como contraponto, como rasgo de luz a cortar as trevas de um presente assombrado pelas guerras, pelas injustiças sociais, pelo absurdo da violência, por «corvos» que sugam a humanidade, a alma a vida.

Aliás, "Contra Corvos", o poema que confere título é também o primeiro, iluminado pela epígrafe de Paul Klee (artista maior da primeira metade do século XX, que transpunha a poesia para a pintura, sendo uma das suas composições mais célebres, precisamente «Jadis surgi du gris de la nuit»). Com efeito, este é o ponto de partida e a chave cedida ao leitor: «Que uma ferida pétala ou cor /possa emergir da cinza escura /e nos olhos corvos trancados/ nasça da noite a luz mais pura» (p. 11). É a partir dessa escuridão, numa espécie de alegoria da caverna reinventada, que o leitor inicia o caminho, em quatro andamentos, ou talvez «estações»: "I. Contra corvos", "II. Irmã de Ícaro", "III, Tempus Fugit", "IV. Ut Pictura Poesis".

Neste percurso, mergulhamos no corpo líquido da Ria Formosa, habitado pelas vozes de poetas que o viveram também pela palavra, como Gastão Cruz ou Teresa Rita Lopes, numa respiração iniciática, ao sabor das marés. Por seu turno, a imensidão do Alentejo é traduzida em três versos: «E se de tanto se alongarem/ os olhos se perderem/ alguém os encontrará» (p. 15).

Do novelo da memória, emerge a infância evocada pelo cheiro da madeira, prolongada numa cantiga de aniversário, onde assoma a transparência do mundo restaurada no olhar das crianças. Mas esse mesmo novelo, também se vai desenrolando ao ritmo da intertextualidade, já de si uma porta de abertura ao Outro, aos Outros. E são múltiplas as vozes que a enformam: Cesário Verde, Camilo Pessanha, Nuno Júdice, António Gamoneda, Fernando Pessoa, Fiama, SophiaManoel de Barros e tantos outros.

Nesta original fusão entre as artes, a entrelaçar pintura, fotografia, música e poesia, revisitam-se, reconstroem-se os mitos clássicos à luz de um novo tempo, sob a lente da contemporaneidade: a «irmã de Ícaro» é Amélia Earhart, primeira mulher a voar sobre o Atlântico, desaparecida em 1937 e é com a evocação, à «irmã transgressora», mesclada de aviso à luta pela liberdade que termina este poema: «e cobrirás de música as penas metálicas/ que no céu futuro planarão escutadas/ por quem souber aos ladrões da liberdade/ dizer não.» (p. 54).

Na terceira parte, "Tempus fugit", é a passagem do tempo que emerge, a escorrer pelos sótãos da memória, nas folhas que ensinam a suavidade da queda, a necessidade do desprendimento inadiável, pois tal como é referido em «rasura»: «Afinal envelhecer é rasurar/ acumular riscos no crómio do espelho» (p.74). Perante este cavalgar desenfreado do tempo, a música, o som, a voz delineia-se como uma espécie de «arquivista do efémero» (usando um termo de Ann Muxel), mas também da memória e da poesia: «Um dia escolherás outra voz que a tua voz reconheça/ (…) Antes que o tempo comece o labor do apagamento.» (p.78).

Por fim, a quarta parte intitulada "Ut pictura poesis", ou seja, «como a pintura, é a poesia», contemplada na Arte Poética de Horácio, delineia-se como um conjunto de quadros esboçados na tinta da palavra, convertendo-se a poesia em pintura, numa notável e original densidade imagética, a convocar, neste diálogo entre interartes, pintores como Graça Morais, Diego Velázquez, ou Malevich, entre outros. Um diálogo que se assume como questionamento, como interrogação, delineando-se a ideia da responsabilidade colectiva encerrada num silêncio perante os absurdos da guerra, das injustiças do nosso tempo («Cristo mudou de nome/ chama-se agora Mahmoud Aijour/ só tem nove anos e já não podem crucificá-lo/ porque na pressa do extermínio / lhe arrancaram os braços» (p. 104).

Em suma, se como referiu Nietzsche em A Vontade do Poder, «Temos a arte para não morrer da verdade», podemos acrescentar, tal como nos revela este inigualável Contra Corvos, que a temos para recusarmos os «ladrões de liberdade», para nos alumiar com o seu rasto de esplendor, para nos resgatar, mesmo no âmago das mais densas trevas, de modo a que «nasça da noite a luz mais pura». 

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa