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A Carta e o Silêncio de Rui Paiva

O encontro das artes visuais com a arte da palavra

«Os temas que percorrem os noventa poemas são muito variados, assim como as suas abordagens, as emoções e sensações evocadas [...].»

A Carta e o Silêncio (2023), do escritor e artista plástico Rui Paiva, é uma obra cuja originalidade e liberdade assomam a cada página. Trata-se de um livro de poesia conceptual “sem rede”, gráfica, experimental. Por outras palavras, uma obra na qual as artes visuais, as imagens (assumindo diversas formas, desde desenhos, aguarelas, fotografias, colagens) se fundem na poesia, prolongando-a, expandindo-a, conferindo-lhe múltiplos e inovadores sentidos, instigando a leitor a rasgar fronteiras. Diversos são também os materiais reproduzidos onde a poesia se inscreve e que vão desde folhas timbradas, cartões, folhas de papel quadriculado, poemas manuscritos ou dactilografados à máquina... Também estes contribuem para expandir a construção de sentidos, como sucede por exemplo nas “pegadas” alaranjadas de uma carta (p.13), ou ainda nos versos «o poder da palavra está no silêncio/ da sua própria sombra» (p. 15) escritos num postal da UNICEF.

Os temas que percorrem os noventa poemas são muito variados, assim como as suas abordagens, as emoções e sensações evocadas, configuradas, por vezes, através de sinestesias («o amor/ a estrutura íntima dos sentidos/ batido de morango /olhos de mel» ou ainda «o amor viaja sem bagagem/ viaja com almofada e tapa-olhos/ com a alma do sonho» (p. 77)). Mas como já foi referido a variedade temática é imensa, desde o amor, a viagem,  a política, a guerra, múltiplos aspectos do quotidiano («chocolates são jogos/ peças de um puzzle /que se esfuma no gosto» (p. 95)). Assim, transpõem-se mundos e continentes (Europa, Ásia, África), que se aproximam, pois «não há cidades sem nome, sem lugar/ não há céus sem estrelas/ sem luar» (p. 67).  Percorrem-se florestas, cidades, jardins, injustiças, sóis, luas, paisagens tropicais e orientais, paletas de cores que espelham também caminhos trilhados pelo autor, nascido em Moçambique, que viveu em Macau, Hong Kong, Portugal e tem viajado por diversas paragens.

Destaque ainda para o poema que confere título à obra, datado de 2017: «As letras juntam-se em vogais e ditongos/Organizam uma viagem/Depois de se agruparem/Destino-alvo selecionado, /Decidem seguir por transporte público/chega a carta com selo e tudo/dentro… vem o silêncio.»

Em suma, um livro edificado numa profunda simbiose interartes, em cujas palavras e imagens se cruzam a liberdade e a síntese. Uma carta aberta às diversas interpretações do leitor, onde silêncio e as sombras emergem frequentemente, numa “sinfonia” de chiaroscuro lembrando o poder do silêncio, das palavras não ditas e o espaço que ocupam nas nossas vidas. 

Fonte

Recensão publicada na revista Caliban em 20 de janeiro de 2025 e transcrito no Ciberdúvidas com autorização expressa da autora. Mantém-se a ortografia de 1945, conforme o texto original.

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa