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Literatura // Recensões

O Flâneur de Paris de João B. Ventura

Deambulações rumo à essência

«João Ventura oferece-nos, generosamente, a sua boite -en-valise, uma caixa mágica, em formato de livro, onde moram as palavras (lidas, pensadas, escritas) e onde guardaremos, não o ar, mas  a pura essência de Paris

O Flâneur de Paris, o segundo livro publicado por João Ventura, pela The Poets and Dragons Society, cativa o leitor, desde as primeiras linhas, guiando-o por uma Paris que se percorre como um livro infinito, onde ressoam as vozes de inúmeros escritores, filósofos, artistas, que tal como este narrador deixaram na palavra escrita o eco dos seus passos.

Organizado em três partes, ou secções: “Topografias”, “Lugares” e “Derivas”, inicia-se, com o “Air de Paris”, evocando a ampola que Marcel Duchamp oferecia aos seus amigos, tendo pedido a um farmacêutico que esvaziasse uma ampola de vidro e a selasse. Assim, condensa em si o imaterial, o invisível, mas essencial. Aliás,  no final da sua vida, Duchamp afirma, tal como é citado na nota de rodapé da p. 15, “Prefiro viver e respirar a trabalhar” -sábias palavras, sem dúvida.

Como ponto de partida, surgem três epígrafes referentes a Paris,  à deambulação de Walter BenjaminRaymond QueneauJacques Roubaud alguns dos muitos companheiros desta viagem literária, também com algum teor ensaístico, se partirmos da ideia de ensaio preconizada por Montaigne, como escrita subjetiva, reflexiva, baseada na experiência pessoal, ou ainda da concepção de João Barrento, que o define como «um eterno devir-escrita. (…) tentativa, busca, experiência, um tactear de caminhos, um saber que sabe que nunca saberá tudo (…) um aliciante espaço aberto da deambulação».

E é precisamente este espaço aberto de deambulação, ancorado frequentemente na intertextualidade que vamos percorrendo, pois tal como afirmou Tiphaine Samoyault, «a literatura alimenta-se de literatura». Neste caso, a intertextualidade evidencia-se através das múltiplas referências, mas também das citações, das epígrafes existentes na maioria dos capítulos.

Na verdade, a viagem inicia-se nesta intersecção entre as memórias das vivências do flanêur e as lidas de tantos outros escritores e artistas que deambularam por Paris, desde Hemingway, Benjamin, Balzac, Enrique-Vila Matas, emergindo as praças, as ruas, os autocarros, num detalhado mapa pessoal, habitado de memórias, cheiros e afectos.
Por seu turno, em resposta ao Lector in Fabula de Umberto Eco, surge-nos o flanêur in fabula, acentuando a questão não apenas da interpretação textual, mas também a da cidade como pluralidade de sentidos, abrindo-se ao longo de todos estes caminhos entrelaçados. Paris é esboçada como «entidade fantástica criadora de efabulações» (p. 25), não apenas multiplamente escrita e reescrita, mas pintada, filmada por cineastas como René Clair, Marcel Carné, Goddard, Truffaut, entre outros (p. 37). Tal como é referido: «livros, filmes, fotografias e canções / de Baudelaire a Aragon e a Walter Benjamin, de Queneau a Jacques Réda, e muitos outros, que se sobrepõem, criando um imenso palimpsesto literário onde se esconde toda uma memória da literatura parisiense dos séculos XIX e XX» (p.41).
Ficamos a conhecer também o spleen parisiense deste flanêur, na sua primeira visita a Paris, após a expulsão de Estocolmo, por estar ilegal. Tal como é referido:  «Recordo que nesses meus primeiros dias de Paris, vagueei como um alienado e um estranho por ruas cinzentas e escorregadias, experimentando sensações obscuras e casas arruinadas a que acedia subindo sombrias escadarias em caracol. A cidade era-me hostil, inquietante e incapaz de a decifrar» (p.44). Com efeito, esta dura experiência de iniciação (ainda sem a rede estruturante da literatura e da arte) pelos percursos da cidade, sentindo na pele o spleen e a situação de tantos artistas marginalizados que a habitavam, será, mais tarde, relevante para a interpretação dos espaços, ocorrida nas múltiplas revisitas e na vivência posterior em Paris, onde João Ventura foi Leitor de Português na Sorbonne.

Na segunda secção, os lugares dividem-se nos cafés (que para George Steiner, têm, na Europa, um valor civilizacional único, como refere ao abrir o livro A Ideia da Europa); os locais de passagem, muitos deles espaços essenciais na vida de vários escritores e artistas. É evocada a «biblioteca que atravessa o Sena» sendo também destacadas as últimas moradas, ou seja, as ruas ou locais onde faleceram diversos escritores, como foi o caso de Mário de Sá-Carneiro. Esboça-se, de certo modo, um contraponto entre lugares de vida, de convívio, de encontro, de pertença, e de solidão, morte frequentemente de suicídio.

Na terceira secção, “Derivas”, o flâneur calça os sapatos dos outros (Baudelaire, Walter Benjamin, Emanuel Bove, Cortázar, Albert Cossery, Roland Barthes), unindo-se aos seus passos, a seguir esses múltiplos olhares, enquanto desvenda detalhes muito interessantes, quase desconhecidos das suas vidas e obras, que interpreta e indaga. Assim, perseguimos, no meio da multidão,  Baudelaire, o poeta singular que converteu magistralmente a flanerie na palavra, chegamos junto ao corpo de Roland Barthes, vítima de atropelamento, durante a derradeira caminhada, com a sua pasta castanha onde repousaria o seu último texto inovador…

Em suma, tal como refere o editor, Dinis H. Machado, esta obra é «um atlas íntimo, uma geografia afectiva onde os lugares se acendem como memórias». Destas memórias, destas vivências e deambulações, abrem-se múltiplas janelas sobre Paris, sobre a Cultura, a passagem do tempo, a Literatura e a Vida. No fundo, contra o declínio, além da gentrificação que degrada os lugares (em Paris e um pouco por todo o mundo), João Ventura oferece-nos, generosamente, a sua boite -en-valise, uma caixa mágica, em formato de livro, onde moram as palavras (lidas, pensadas, escritas) e onde guardaremos, não o ar, mas  a pura essência de Paris.

Fonte

Artigo da professor universitária e escritora Dora Nunes Gago publicado no Jornal do Algarve de 26 de Dezembro de 2025. Mantém-se a ortografia de 1945, que é a adotada no original.

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