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O nosso idioma // Formas de tratamento

Seguro, como Marcelo, um presidente que não se esquece de vós

A atualidade de um pronome em eleições presidenciais

Marcelo Rebelo de Sousa, em 2016, na receção, em Belém, à seleção portuguesa de futebol sénior masculino, após a conquista do campeonato da Europa, além de ocorrências de vocês e de formas verbais de terceira pessoa do plural em alocução, disse:

«[...] Campeões, campeões, que aqui estais…

[...] Essa condecoração, que é a ordem de mérito, não é a maior condecoração que ides receber ou que já recebestes. Essa condecoração que já recebestes foi a dada pelo povo português, uma condecoração feita de orgulho e de gratidão. Orgulho por aquilo que fizestes durante mais de um mês por Portugal.»

Há outros exemplos, noutras situações. O ponto é este: a segunda pessoa do plural gramatical (vós e as respetivas formas verbais e complementos, como, por exemplo, convosco ou vos) era uma opção linguística presente em produções do Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa.

Tomando em consideração os discursos de vitória (candidato mais votado) de António José Seguro nas duas voltas das eleições presidenciais (para não falar do «não deixem que escolham por vós» – à saída da assembleia de voto nesta segunda volta), suspeita-se de que haverá continuidade no uso de vós e formas gramaticalmente associadas pela mais alta figura do Estado. Veja-se:

Discurso de António José Seguro na noite eleitoral de 18 de janeiro (primeira volta):

«[...] Dirijo uma palavra de apreço e de respeito a todos os candidatos que não passaram à segunda volta. Não há derrotados, porque todos somos democratas. O país continuará a contar com o contributo de cada um de vós.»

«[...] Com a vossa confiança, serei o presidente de todos os portugueses. E faço esse juramento diante de vós: serei o presidente de todos os portugueses.»

«[...] Unidos, unidos e pela positiva. Precisamos do melhor que há dentro de cada um de nós, Portugal precisa de vós, precisa de nós.»

Discurso de António José Seguro na noite eleitoral de 8 de fevereiro (segunda volta):

«[...] Não vos esquecerei e não vos abandonarei.»

«[...] Hoje falo-vos com o coração cheio (…)»

«[...] Sou um de vós. [...]»

Ora, se vós, leitores, tínheis dúvidas da atualidade do pronome vós (e formas gramaticalmente associadas) como tratamento de segunda pessoa do plural em português contemporâneo, nomeadamente, e tomando estes exemplos, em contextos nos quais impera alguma solenidade, talvez seja tempo de refletirdes (de refletirmos todos) um pouco mais.

Remetendo para a famosíssima referência a Mark Twain, parece que as notícias da morte de vós são claramente exageradas. 

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa