Tu e Vós em textos bíblicos - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Tu e Vós em textos bíblicos

Do ponto de vista religioso, escolhi pessoalmente usar os pronomes que denotam mais reverência como vosso, vós, etc.

No entanto, não sei se por influência do Brasil, observo que as traduções de João Ferreira de Almeida da Bíblia (protestante) da Sociedade Bíblica de Portugal usam Tu (que na verdade em Portugal é para um tratamento entre pares ou mais íntimo).

Na vossa opinião, qual o motivo por detrás desta diferença? Se no Brasil usam Tu, pela mesma ordem de ideias deveríamos usar vós (ou você) em Portugal. Certo?

Já fiz um estudo muito alargado sobre isso e compreendo que no passado (muitos séculos atrás) na verdade era o Tu que se usava originalmente, e que este tinha uma carga mais respeitosa do que aquilo que acontece hoje em dia na língua "corrente" em Portugal.

Imagino que no Brasil essa carga de respeito se tenha mantido ao longo do tempo e que um sentimento de um brasileiro quando faz uma oração e use Tu seja diferente de um português a fazer o mesmo.

No fundo, a minha pergunta é se, do ponto de vista técnico, existe uma diferença na carga da palavra quando usada por um brasileiro ou um português. Se, no fundo, se estão a dirigir a um ser superior de forma diferente (um com mais respeito e o outro com menos) quando usam o mesmo pronome.

Também se existe alguma norma/protocolo/boa prática "oficial" para estas situações como orações religiosas, etc.

Obrigado.

Luís Cordeiro Consultor Setúbal, Portugal 9K

Não posso confirmar o uso de vós e respectivos possessivos na história mais recente do texto bíblico em português europeu. É certo que nessa variedade ela ocorre na oração conhecida por padre-nosso ou pai-nosso («Pai nosso que estais nos céus...). Verifico que, em edições recentes da Bíblia ou dos Evangelhos, é tu a forma de tratamento por quem se dirige a Deus, como acontece em duas versões do Cântico de Simeão, contido no Evangelho de São Lucas (Lucas 2, 29-32):

(1) «Agora, Senhor, segundo a tua palavra,/ deixarás ir em paz o teu servo,/ porque meus olhos viram a Salvação/ que ofereceste a todos os povos,/ Luz para se revelar às nações/ e glória de Israel, teu povo» (Bíblia Sagrada, Lisboa/Fátima, Difusora Bíblica/Franciscanos Capuchinhos, 5.ª edição, 2008).

(2) «Agora, Senhor, podes despedir o Teu servo/ em paz segundo a Tua palavra,/ porque viram os meus olhos a Salvação/ que preparaste ao alcance de todos os povos:/ luz, para se revelar aos pagãos/ e glória de Israel, Teu povo» (Bíblia Sagrada – Santos Evangelhos, Braga, Edições Theologica, 1994).

Que na primeira tradução portuguesa dos Evangelhos, datada do século XVII, se empregue também tu parece-me indicar que, no discurso bíblico, esta forma de tratamento é mais antiga em português do que vós. No entanto, o vós, por exprimir reverência — a que se deve à majestade de rei e imperadores — fez tradição, pelo menos em Portugal, de tal maneira, que, na edição da Difusora Bíblica/Franciscanos Capuchinhos (a chamada «Bíblia dos Capuchinhos»), se classifica a opção pela forma tu como uma novidade da 1.ª edição:

«Naturalmente, a Bíblia é a mesma, no que se refere aos textos originais; mas tudo o resto era novo: [...] as citações do Antigo Testamento no Novo em itálico, o nome de Deus em versalete e o tratamento de Deus por Tu.»

No Brasil, o uso de tu terá alguma ressonância arcaica. Em Portugal, esse uso recupera afinal um sistema medieval de forma de tratamento no qual se reservava o vós apenas para dois ou mais destinatários.

Quanto à questão de saber se existe uma norma, para este caso, penso que, a partir do que já expus, se podem aduzir argumentos no sentido de a escolha entre vós e tu reflectir estilos literários de épocas diferentes.

Carlos Rocha
Tema: Formas de tratamento Classe de Palavras: pronome