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Controvérsias // Uso e norma

Afinal, "escrever bem" não é subjetivo?

As recomendações de José Oiticica e de outros autores

«Há séculos existem dezenas de livros ensinando quais são os critérios de um texto bem escrito

[Em 02/05/2026], palestrei para cerca de 100 estudantes de Letras e professores de Português sobre a importância do ensino da gramática normativa tradicional.

Ao fim da conferência, houve uma sessão de tira-dúvidas e outros questionamentos. Um dos espectadores me fez a seguinte pergunta, seguida de uma observação:

– Pestana, o que é um "bom" escritor? Minha professora de Sociolinguística disse que isso era totalmente subjetivo.

Eu lhe respondi que um bom escritor é aquele que escreve bem. E não há nada de subjetivo nisso – afinal, há séculos existem dezenas de livros ensinando quais são os critérios de um texto bem escrito. Classificar um texto nessa categoria implica conhecer tais critérios, portanto.

É curioso que até mesmo os linguistas mais avessos à tradição gramatical normativa reconhecem a precisão e relevância do adjetivo bom ou melhor associado a escritor. Por exemplo, M. Bagno em sua gramática: «Ele também é empregado como objeto direto há muito tempo, inclusive por nossos MELHORES ESCRITORES…» (p. 767); «As pessoas que persistem com tal discurso renegam sua própria língua materna e exigem um código de conduta linguística irreal (e irracional) que ninguém no Brasil obedece, nem mesmo os nossos MELHORES ESCRITORES, tradutores, jornalistas e compositores» (p. 756); «Vamos mostrar para nossos alunos que 'o mesmo' praticamente nunca ocorre nos textos dos nossos MELHORES ESCRITORES, tradutores, jornalistas, ensaístas etc.» (p. 967).

Em 1946, o linguista dinamarquês Otto Jespersen registrou em seu livro Mankind, Nation and Individual esta definição por meio de um raciocínio circular virtuoso: «Estabelecemos como a melhor língua a que se encontra nos melhores escritores e consideramos como os melhores escritores aqueles que melhor escrevem a língua.»

Leia o que disse Bernardo Soares (heterônimo de Fernando Pessoa):

«... odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita...»

Não há um sentimento de ódio por quem escreve mal português; antes, ele sente ódio da página mal escrita, do português mal escrito. É o mesmo princípio que faz um músico sofrer com uma nota desafinada, sem odiar o instrumentista.

Não por nada, muitos estudiosos da língua portuguesa (e de outras línguas) – ao menos desde o século XVI até o século XXI –, cada um à sua maneira, deixaram sua contribuição nesse sentido:

Século XVI

Pero de Magalhães de Gândavo – Regras que Ensinam a Maneira de Escrever e Ortografia da Língua Portuguesa

Século XVII

Francisco Rodrigues Lobo – Corte na Aldeia e Noites de Inverno

Século XVIII

Luís António Verney – O Verdadeiro Método de Estudar

Século XIX

António Feliciano de Castilho – Método Castilho para o Ensino Rápido e Aprazível do Ler Impresso, Manuscrito, e Numeração e do Escrever

Cândido de Figueiredo – Lições Práticas da Língua Portuguesa  

Séculos XX e XXI

Rodrigues Lapa – Estilística da Língua Portuguesa  
Mário Gonçalves Viana – A Arte de Escrever
Antônio Albalat (trad. Cândido de Figueiredo) – A Arte de Escrever Ensinada em Vinte Lições 
Gladstone Chaves de Melo – Ensaio de Estilística da Língua Portuguesa 
Othon M. Garcia – Comunicação em Prosa Moderna
Antônio Suárez Abreu – Curso de Redação
Carlos Alberto Faraco e Cristovão TezzaOficina de Texto 
José Luiz Fiorin e Francisco Platão SavioliPara Entender o Texto: Leitura e Redação
Steven Pinker – Guia de Escrita: Como Conceber um Texto com Clareza, Precisão e Inteligência 
Nilce Santanna Martins – Introdução à Estilística: a Expressividade na Língua Portuguesa 
William Campos da Cruz – Tudo Converge para o Texto

Se «escrever bem» é subjetivo, por que há tantos séculos – em diferentes civilizações – estudiosos, escritores, gramáticos, retóricos, estilistas, jornalistas e professores produzem obras voltadas precisamente ao aperfeiçoamento da escrita, buscando ensinar como escrever melhor?

Existem «manuais de como escrever bem» em todas as línguas de cultura – português, espanhol, francês, alemão, italiano, russo, árabe, inglês. A maioria dos fundamentos universais delimitadores do bem escrever são um consenso, e não uma coincidência, entre os estudiosos citados – e tantos outros não citados.

Mas devem ser todos baseados em subjetividade, claro.

Estou plenamente convicto de que a verdadeira norma culta é aquela que cultiva a língua, o que significa necessariamente o seguinte: a norma verdadeiramente culta é aquela que reúne em si as qualidades de um texto bem escrito e, justamente por isso, sempre foi a eleita pelos gramáticos, visando ao estabelecimento dum padrão de exemplaridade idiomática.

Gosto bastante do Manual de Estilo (1926), do grande professor brasileiro José Oiticica, que sistematiza os critérios da boa escrita condensados por ele em seu livro.

É óbvio que nenhuma obra esgota o assunto e também é óbvio que algumas (poucas) de suas desabonações gramaticais já ficaram datadas. Mesmo assim, vale muito a pena a sua leitura (cuidada).

Eis o que diz Oiticica na apresentação de seu Manual de Estilo:

«Podemos afirmar que, no Brasil, a generalidade dos homens públicos, jornalistas, advogados, médicos, engenheiros, funcionários, historiadores, geógrafos, escrevem mal. [...]

Qual o motivo desse desalinho no estilo? Minha observação no magistério, sobretudo nas bancas de preparatórios, me confirma numa causa única: desorientação geral dos professores primários e secundários. Sem terem aprendido nunca a técnica de escrever, cada qual corrige a esmo as composições dos seus alunos, emendando e aconselhando conforme o seu gosto pessoal, muitas vezes malformado. [...]

Certo disso, resolvi condensar, em regras práticas, muito simples, o essencial do que ensinam os mestres na matéria. Este Manual, fruto de laboriosa seleção, contém as normas fundamentais, apenas, para quem quer escrever satisfatoriamente, com elegância, simplicidade, clareza e vigor. Não visa, de modo algum, e insisto neste ponto, fabricar escritores. Ministra, tão somente, os princípios clássicos, segundo os quais, podem os mais destituídos de veia literária redigir a contento dos leitores. Entretanto, os mesmos gênios necessitam de iniciação. A arte de escrever, como todas as artes, é difícil e a de hoje é resultado de multisseculares aperfeiçoamentos conseguidos por grandes mestres, cujos processos a crítica esmiúça e apura. Supor que o talento natural, por si só, tudo adivinha, e descobre, de salto ou de oitiva, o que gerações de gênios pouco a pouco revelaram, é incorrer no lamentável erro de tantos músicos, pintores, escultores, perdidos para a arte de não quererem conquistá-la de mansinho, nem lhe aprender custosamente a técnica severa.»

Em seguida, apresenta os critérios basilares da arte de escrever:

«Há seis qualidades essenciais de estilo: correção, concisão, clareza, harmonia, originalidade, vigor. Há seis defeitos essenciais correspondentes a tais qualidades: impureza, prolixidez, obscuridade, desarmonia, banalidade, frouxidão. [...]

A correção consiste em observar a tradição gramatical dos mestres da língua.

A concisão consiste em expressar os aspectos, fatos ou opiniões com o menor número de frases ou palavras. Podemos defini-la: o dispêndio mínimo de esforço com o máximo efeito de expressão. Naturalmente, só se considera qualidade se não prejudica as demais qualidades; o excesso de concisão redunda em obscuridade e desarmonia.

A clareza consiste na transmissão mais facilmente compreensível do pensamento.

A harmonia consiste em dispor a descrição, a narração ou a dissertação do modo mais artístico, evitando as dissonâncias e compondo as frases com os ritmos mais bem combinados.

A originalidade consiste em apresentar os aspectos, fatos ou opiniões de modo pessoal, sem imitação de processos ou particularidades alheios.

O vigor consiste em transmitir o aspecto, o fato ou a opinião do modo mais incisivo, que mais excite a atenção ou a emoção do leitor.»

Recomendo a leitura na íntegra de cada parte do livro, porque José Oiticica destrincha cada um desses critérios com rigor.

Boa leitura!

Fonte

Publicação do autor no Facebook (07/05/2026) aqui transcrito com a devida vénia.

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