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Do «catar piolhos» ao «catar o lixo»…

As Voltas que um verbo dá…

A entrada em funcionamento do sistema Volta parece ter trazido para a atualidade noticiosa a expressão «catar o lixo», como se vê, por exemplo, no título desta notícia do Jornal de Notícias, de 22 de julho de 2026:

   "Indigente apanhado a catar lixo em Campo de Ourique para despachar no Volta"

A expressão (res)surge porque há, de facto, cada vez mais pessoas nas ruas a procurar no lixo embalagens com o símbolo Volta. Durante muito tempo, o verbo catar, em Portugal, estava sobretudo ligado ao ato de procurar piolhos ou pulgas em pessoas ou animais. O ato de catar implicava mexer e remexer o cabelo ou o pelo até se encontrar o parasita, à semelhança do que acontece com o lixo, em que é preciso mexer e remexer até se encontrar a embalagem com o símbolo Volta. É possível que a proximidade imagética tenha gerado esta extensão semântica.

Embora tenha ganho algum incremento mediático e social devido aos problemas de salubridade urbana provocados pelos resíduos espalhados pelo lixo remexido, resultante da procura pelas embalagens com o símbolo Volta, a expressão já existia há bastante tempo no léxico, como se vê por esta notícia de 2013, em que também no título se usa a expressão:

   "Ideia de coimas para quem catar lixo não é consensual entre empresas de resíduos"

Mais recentemente, em 2023, a versão portuguesa da revista National Geographic recorria à mesma expressão:

   «A cidade de Nova Iorque não sabe quantas pessoas subsistem a catar lixo, mas segundo uma estimativa aproximada, o total aproxima-se de 8000.»

A origem pode estar no Brasil. Em 2011, num texto intitulado "A vida no lixo", a jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho reproduzia, no Público, fala de um «catador de lixo» – expressão por que são conhecidas as pessoas que no Brasil se dedicam a procurar no lixo algo que possam vender – retiradas do documentário Lixo Extraordinário:

   «A catar o quê? "Alumínio, papelão, plástico fino...", aponta o veterano. "Hoje em dia o material está todo em alta. Alumínio é o que dá mais dinheiro» e mais adiante «[…] Então como todo o mundo ganhava dinheiro do lixo, fui catar lixo com 13 anos.»

É plausível aventar que o uso do verbo catar aplicado à procura de algo transacionável nos resíduos urbanos possa ter sido cunhado pelos próprios apanhadores e importado do Brasil, país onde a atividade dos catadores tem alguma representação social – a profissão de Catador de Material Reciclável está até oficialmente registada na Tabela da Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) – e onde o verbo catar tem bastante curso com o sentido de «apanhar/recolher» («catar conchas na praia»), enquanto em Portugal o verbo manteve-se mais ligado a «livrar-se parasitas» («catar piolhos ou pulgas em pessoas ou animais», ou «catar o feijão ou o arroz, à procura do gorgulho»).

Importa referir, porém, que o sentido de «pesquisar minuciosamente», de forma mais literal ou concreta ou mais abstrata ou metafórica (cf. Infopédia) ), sem ser parasitas, também existe em Portugal, desde há muito. Uma pesquisa no Web Dialetos do Corpus Davies mostra-nos, nas ocorrências de Portugal: «catar votos», «catar espinhos na água», «catar uma informação», «catar os ímanes no frigorífico», «catar na net para comprar», «pardais a catar os restos», etc. Também na literatura se encontra este uso, por exemplo, em Eça de Queirós, na Correspondência de Fradique Mendes («catar o galicismo») e, no dia a dia, surpreendemos, por exemplo, em 2025, o «catar mentiras», no refrão da letra da canção "Terraplanismo", de Os Quatro e Meia:

Olha só!
Enquanto tu conspiras, à cata de mentiras
O mundo vai e vem
Olha só!
Amarra-te ao que é certo: eu estou aqui tão perto
E só te quero bem.

Apesar de todos estes exemplos nas ocorrências de Portugal, na referida pesquisa sobre o verbo catar no Corpus Davies, a dominância é da expressão idiomática «Vai-te catar» – que é também ela provavelmente uma derivação metafórica de «catar piolhos ou pulgas».

Fonte

Créditos da imagem: Wikipédia, 14/08/2026.

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