Machosfera, Camilo em filme, a língua no Brasil, «talvez esteja», discrição e aconchada pela habitação
1. A questão dos direitos tem levado a uma polarização de posições ideológicas, manifestada por exigências e reações extremadas. Do lado do ressentimento antifeminista, desenvolvem-se hoje formas inusitadas de ativismo a favor do regresso aos tempos em que o poder masculino se impunha sem discussão. Em O Nosso Idioma, a linguista e professora universitária Margarita Correia aborda três termos hoje recorrentes quando se fala da apologia do machismo nas redes sociais: manosfera, machosfera e «masculinidade tóxica». Recomendação linguística da autora: machosfera é forma transparente e, portanto, mais adequada do que manosfera, cuja interpretação é menos óbvia para os falantes de português.
2. A estreia da adaptação ao cinema da obra Memórias do Cárcere, de Camilo Castelo Branco, é boa oportunidade para (re)ler a obra e apreciar a linguagem deste autor maior da literatura de Portugal. Ainda em O Nosso Idioma, a consultora Sara Mourato comenta algumas expressões regionais e modos de dizer quotidianos que Camilo soube explorar como ninguém, valorizando a diversidade da língua.
3. A 2.ª volta das eleições presidenciais no Brasil tem lugar em 25/10/2026, num ambiente de enorme confronto verbal, em que até características da oralidade são mobilizadas nos discursos de campanha. Igualmente em O Nosso Idioma, dá-se conta de como «a fé não costuma faiá», verso de uma conhecida canção de Gilberto Gil, adquiriu o estatuto de palavra de ordem de um dos campos políticos; e observa-se também que a pronúncia popular de andar e falhar como "andá" e "faiá" podem revelar, afinal, tendências e variantes igualmente ativas noutros países de língua portuguesa. Justamente sobre o muito que há de herança no que se julga ser inovação do português do Brasil, a rubrica Controvérsias inclui um artigo do gramático Fernando Pestana, do qual, para surpresa de muitos portugueses, se salienta esta frase: «Muitos usos linguísticos hoje característicos do português brasileiro (falado e/ou escrito, informal e/ou formal) já existiam no português antigo e alguns sobrevivem em variedades regionais de Portugal.»
4. Falando de um futuro incerto, diz-se «talvez esteja interessado» ou «talvez estarei interessado»? A resposta está no Consultório e faz parte do total de 12 dúvidas que foram esclarecidas entre 19 e 23/10/2023.
5. No Pelourinho, dá-se conta de uma peça jornalística onde se lê que o dono de um restaurante recebe os seus clientes com «a "descrição" que lhe é conhecida». A linguista Carla Marques dedica um apontamento a este erro e sistematiza as diferenças entre discrição e descrição.
6. Depois de acampada e tendifada, outro neologismo emerge das manifestações de protesto pelo acesso à habitação: trata-se de aconchada, ao que parece derivado de «dormir de/em conchinha» (cf. Euronews), que quer dizer «dormir em posição deitada, de lado, em que uma pessoa se encaixa noutra, como duas conchas».
Em aditamento às observações da Abertura de 16/10 sobre a neologia da crise na habitação: tendifada terá sido cunhado no programa Estado d'Arte (episódio 33, 15/10/2026); e aconchada, na transmissão em direto da Correio da Manhã TV, na madrugada de 22/10/2026, na sequência da decisão dos manifestantes de fazer um minuto «em conchinha», isto é, fazendo uma "aconchada" como ação de protesto. Agradece-se a chamada de atenção do consultor Paulo Barata para estes neologismos e para os registos que captaram a sua criação.
7. Acerca dos programas que a Associação Ciberdúvidas da Língua Portuguesa produz para a rádio pública de Portugal, toda a informação disponível se encontra na página principal e nas Notícias.
