Acampada, feminismo, o livro A Natureza da Linguagem, auferir, a pronúncia de Nobel e sequer vicentino
1. Em Portugal, tal como acontece em Espanha, a crise da habitação desencadeia a agitação social, com mais visibilidade no Porto, onde se têm concentrado as atenções da comunicação social (cf. "Manifestantes continuam a dormir ao relento no Porto: apreensão de tendas 'deu mais força ao movimento'", SIC, 14/10/2026). Na cobertura dos confrontos entre manifestantes e forças policiais entre 12 e 15/10/2026, na Praça D. João I, no centro da Invicta, ressalta o nome acampada, para referir ações coletivas de protesto organizadas como acampamentos que ocupam espaços públicos. Nas últimas décadas, tem crescido a produtividade do sufixo -ada na constituição de nomes deverbais que designam ações políticas de rua, como é o caso de arruada, aqui comentado em 2006. Mas este sufixo anda igualmente associado à história política de Portugal desde há, pelo menos, dois séculos, como atesta a expressão Vila-Francada, derivada do topónimo Vila Franca que recorda o pronunciamento militar de 1823 contra o emergente constitucionalismo português. A criatividade derivacional pode convergir com um processo não regular de formação de palavras, a amálgama, para produzir outro neologismo expressivo, "tendifada" (RTP Notícias, 15/10/2026, 23h35)*. Trata-se da fusão de tenda, alusiva à acampada promovida na referida praça portuense, com Intifada, do árabe al-Intifāḍa («levantamento»), nome próprio que evoca a revolta palestiniana, que se prolongou de 1987 a 1993. As épocas turbulentas dão sempre mote para neologismos e estes, se não permanecem depois no uso mais corrente, documentam vários momentos da memória de um país.
* Registe-se que, neste movimento pelo direito à habitação, as palavras de ordem do protesto envolvem o termo tenda. Exemplos: «Não consegues pagar a renda? Traz tenda» ou «Não consegues pagar a renda? Monta a tenda».
2. Em agosto de 2026, o termo feminismo foi a palavra mais frequente nas pesquisas feitas no dicionário da Infopédia. Em O Nosso Idioma, a linguista e professora universitária Margarita Correia regressa às crónicas e apontamentos sobre temas linguísticos com um texto à volta da origem e evolução da palavra feminismo.
3. Na Montra de Livros, apresenta-se A Natureza da Linguagem (Livros Zigurate), um livro de Alexandra Soares Rodrigues, que trata questões diversas de natureza linguística sob uma perspetiva diferenciadora, dialógica e inclusiva do leitor não especializado.
4. Na rubrica Bom Português, da RTP, falou-se dos verbos parónimos aferir e auferir. Voltando a O Nosso Idioma, a presente atualização inclui um comentário da consultora Sara Mourato sobre a confusão destes dois verbos, que se deteta entre alguns falantes.
5. Começando por contestar a visão normativa segundo a qual a pronúncia paroxítona de Nobel é inaceitável, o professor João Nogueira da Costa explora uma subtileza da fonologia do inglês que tal prolação do português revela, talvez inesperadamente.
6. «Mostra-me essa roca cá:/ siquer fiarei um fio» – diz a personagem da Ama no Auto da Índia (1509), a conhecida farsa de Gil Vicente. Nesse contexto, o advérbio siquer, variante arcaica de sequer, exprime a intenção de fiar, ou a rejeição desta tarefa, supondo que a palavra é equivalente a «nem sequer»? A resposta faz parte do conjunto de 13 novos esclarecimentos que se disponibilizaram no Consultório entre 12 e 16/10/2026.
7. Como sempre, acerca dos programas que a Associação Ciberdúvidas da Língua Portuguesa produz para a rádio pública portuguesa, encontra-se toda a informação na página principal e nas Notícias.
