O nosso idioma // Português do Brasil
Falhar vs faiá
Sociedade brasileira e processos fonológicos
«"Faiá" é coração, "falhar" é cabeça. E fé é coração.
"A fé não costuma faiá": é pra quem fala assim que ela não costuma "faiá".»
Gilberto Gil, X, 28/06/2020
Assim interpreta Gilberto Gil o sentido da forma "faiá", que integra o refrão «Andá [andar] com fé eu vou/Que a fé não costuma faiá [falhar]», de "Andar com fé", conhecida faixa do álbum Um Banda Um, de 1982.
A explicação em epígrafe foi registada muitos anos mais tarde, no lançamento de uma nova versão de "Andar com fé". E, nas vésperas da 2.ª volta das eleições presidenciais no Brasil, a ter lugar em 25/10/2026, o refrão com mais de quatro décadas ganhou novo sentido, sobretudo pela importância atribuída a questões de religião e fé no despique entre os apoiantes de Lula da Silva e os de Flávio Bolsonaro1.
É curioso como "faiá", variante de falhar, reúne só por si dois dos traços típicos da fala popular do Brasil que são resultado de processos fonológicos não desconhecidos em Portugal.
Começando pelo primeiro traço, consiste este na passagem de som representado por lh para o i que se ouve, por exemplo, em saia: falhar > "faiar". Trata-se de um fenómeno de vocalização ou iotização2, pelo qual a consoante lateral palatal -lh-, cujo símbolo fonético é /ʎ/, perde o seu traço lateral (deslateraliza-se) e se converte numa semivogal ou glide, ou seja, num i, representado pelo símbolo /j/. Este segmento ocorre em ditongos (ex., pai), mas também pode intercalar-se num encontro vocálico como sucede em meia ou praia.
A alteração em causa é frequentemente mencionada em estudos da dialetologia brasileira, que a identificam com a fala popular brasileira3 . O fenómeno chega a ser mencionado na área do Português Língua Estrangeira, como sucede com Manual de Língua Portuguesa (Portugal-Brasil), 11999, p. 47), de Paul Teyssier, que refere que palavras como filho e soalho podem soar como "fio" e "suaio", pronúncias consideradas populares e incorretas.
Mais difundida e praticamente integrada nas pronúncias padronizadas do Brasil, é a queda da consoante vibrante simples -r em final de palavra (apócope), a qual leva falhar a soar como "falhá". Esta é uma das realizações do r final, que apresenta grande variação no português do Brasil.
Se a chamada iotização – o passo de lh a i – parece rara ou ausente em Portugal4, já a queda do-r final consta da descrição dos dialetos portugueses5. O ouvido apurado ou os equipamentos para análise fonética poderão revelar que, mesmo na norma-padrão de Portugal, se suprime esse -r final na ligação de palavras, antes de consoante; são exemplos: «montar casa» = "montàcasa"; «chegar tarde» = "chegàtarde"; «apresentar proposta» = "apresentàproposta"6.
O que dizer ainda quanto a uma canção em que se decide usar a forma supostamente errada, no caso, "faiá", em «a fé não costuma faiá»? Para além das minudências da descrição fonética, haveria que comentar, noutra perspetiva, a vertente pragmática da pronúncia "errada" como ato de subversão que contraria a norma-padrão e o poder político que a promove. No contexto brasileiro, a questão da língua e a definição da norma suscitam sempre debate aceso e até fundo antagonismo, como indicam os muitos artigos que, sobre este assunto, o Ciberdúvidas disponibiliza. Como este apontamento se quer breve, basta sugerir que assumir em discurso a forma incorreta será a forma de protesto de quem a vida desfavorece, atendendo ao que Evelyne Dogliani Madureira apontou no seu estudo de 1999 (ver nota 2): «O fato é que, se, num determinado momento a vocalização da lateral palatal foi típica do falar de índios e negros, ela é, hoje, característica do falar caipira [...], e, nos centros urbanos, característica das classes baixas e não-escolarizadas.»
No contexto das eleições presidenciais brasileiras de 2026, o sentido de «a fé não costuma faiá» acentua, portanto, a dimensão política da leitura de Gilberto Gil na epígrafe: ao povo que fala "errado", a força só pode vir da fé, já que o privam de ter razão. E se, como Tertuliano (c. 160-c. 220) supostamente disse, a fé for absurda, tudo é possível, até a iotização e a apócope.
1 O verso «a fé não costuma "faiá"» teve destaque no encerramento da campanha do governador da Bahia, Jerónimo Rodrigues (Partido dos Trabalhadores – PT) em 30/09/2026, antes da 1.ª volta das eleições presidenciais brasileiras (cf. "Jerónimo encerra propaganda eleitoral com Lula e pede voto no 13", Toda Bahia, 30/09/2026). Mas a palavra fé, dissociada da famosa canção de Gilberto Gil, foi recorrente na propaganda da candidatura de Fávio Bolsonaro (cf. "Campanha de Flávio escolhe 'Vem com Fé' como tema e lança primeiro jingle", CNN Brasil, 05/06/2026).
2 Iotização é o termo também empregado para designar este tipo de vocalização. Deriva de iota, originalmente nome da nona letra do alfabeto grego (ι) e, nos estudos linguísticos, usado para designar a semivogal [j], que ocorre como fenómeno fonológico de adição ou alteração de segmentos (consultar aqui).
3 Ver Evelyne Dogliani Madureira, "Reanálise de alguns aspectos da vocalização da lateral palatal no português", Revista de Estudos da Linguagem, 8(1), 1999, pp. 125-145, M. Russo, "Iotização do dígrafo", Filologia E Linguística Portuguesa, 7, 2005, pp. 135-143, e Selma Santos Cruz e Alan Jardel de Oliveira, "A semivocalização da consoante lateral palatal no falar alagoano", Revista (Con)Textos Linguísticos, Vitória, v. 18, n. 41, 2024, pp. 8-23.
4 Na Internet, fala-se de o lh se pronunciar i entre alguns falantes da ilha açoriana de S. Miguel, mas esta ideia parece vir de artigos em que se defende a hipótese de o fenómeno de iotização no estado brasileiro de Santa Catarina se dever à colonização açoriana (cf. "Curiosidades sobre a língua", Vila dos Açores, 23/06/2026). Acontece que não se encontra confirmação desta pronúncia em estudos científicos. Contudo, a iotização, referida pelo termo ieísmo (em espanhol, yeismo), é comum entre falantes de espanhol e até do galego, havendo registo da sua ocorrência em Portugal, num dialeto fronteiriço de Trás-os-Montes, o guadramilês (cf. José Leite de Vasconcelos, Esquisse d’une Dialectologie Portugaise, Paris, 1901, pp. 200–201).
5 Lê-se na Gramática do Português – GP (Fundação Calouste Gulbenkian, 2013-2020, p. 115): «[Um] traço da quase totalidade dos dialetos açorianos é a supressão da consoante vibrante em final de palavra, seguida de pausa, exemplificada a seguir: (34) a. lav[á] lavar; b. alguid[á] alguidar; e. lag[á] lagar; d. mo[é] moer; e. lavrad[ó] lavrador [...].»
6 Ainda na GP (p. 115), observa-se: «[...] a não realização da vibrante [r] em final de vocábulo, mas imediatamente antes de palavra começada por consoante, ocorre no português [europeu] continental, mesmo no português-padrão, sobretudo em registo corrente, como já notava L. de Vasconcellos, que dá como exemplos "comprá' caro, po' teu pé, se não fô' muito tarde" [...].»
