DÚVIDAS

O advérbio finalmente
Tenho uma dúvida sobre o advérbio «finalmente» e o seu uso como conector discursivo. Em várias gramáticas, «finalmente» é indicado como marcador do último elemento de uma sequência enumerativa. Infelizmente, não havia exemplos. No entanto, ao analisar textos reais, encontrei apenas usos diferentes (corrijam-me, por favor, se a terminologia não é a correta); - Como advérbio temporal – indica que algo acontece após espera: “O projeto finalmente começou.” - Conector conclusivo – introduz uma conclusão ou culminação de um raciocínio: “Foram analisados vários fatores e, finalmente, decidiu-se alterar a lei.” “O relatório estudou a evolução da despesa pública, o impacto das medidas fiscais e, finalmente, as perspetivas de crescimento económico.” Porém, se a frase for: “Em primeiro lugar, discutiu-se a educação. Relativamente à saúde, foram apresentados dados. Quanto a transportes, houve propostas. Finalmente, falou-se da cultura.” Neste caso há uma sequência temporal e finalmente introduz o último termo que é temporal. Até aqui entendo. A dúvida vem como uso numa sequência sem qualquer relação entre si, como marcador de enumeração neutra. Por exemplo, em textos argumentativos ou opinativos com tópicos independentes, uma frase hipotética seria (reforço que foi inventada): “Em primeiro lugar, penso que a educação é essencial. Relativamente à saúde, considero prioritário investir. Quanto a transportes, creio que o investimento deve ser maior. Finalmente, a cultura merece atenção.” Neste caso, os tópicos não seguem uma sequência temporal ou lógica, mas apenas refletem pontos de opinião sucessivos. Aqui, «finalmente» soa estranho, já que transmite um valor de conclusão ou encerramento diferente de marcadores puramente enumerativos como “por último”, que apenas indicam o último item da lista. A minha dúvida é, portanto: Será que «finalmente» pode ser usado de forma natural como marcador neutro do último ponto em listas de tópicos independentes? Não é o mesmo "por último" que "finalmente". Sendo assim, porque teimam as gramáticas em tê-los juntos? Poderiam ainda ajudar-me a classificar gramaticalmente os diferentes usos de «finalmente»? Agradeço desde já qualquer esclarecimento sobre a frequência real destes usos e a terminologia adequada para cada valor de «finalmente». Muitos parabéns pelo magnífico trabalho.
«Que morreu D. Sebastião» (Mensagem, Fernando Pessoa): análise sintática
Os dois últimos versos do poema “O Quinto Império” do livro Mensagem, de Fernando Pessoa, suscitam-me algumas dúvidas, tanto semântica como sintaticamente. Ora, os dois versos são: «Quem vem viver a verdade/Que morreu D.Sebastião?» Por seu turno os versos anteriores desta quintilha são: «Grécia, Roma, Cristandade, /Europa – os quatro se vão/ Para onde vai toda a idade» Achei curiosa a musicalidade do verso «Quem vem viver a verdade», que junta a assonância do e e a aliteração do v. Contudo, a minha dúvida prende-se com a classificação da oração «Que morreu D.Sebastião». Terá um valor restritivo (que tipo de verdade é essa: a verdade que é [consiste no facto de] ter morrido D.Sebastião/ o facto que é ter morrido D.Sebastião), ou de complemento (que facto é caraterizado como verdadeiro, ou seja:«É verdade que morreu D.Sebastião/ Que morreu D.Sebastião é a verdade»), ou de explicação (o motivo do apelo para viver a verdade [do quinto império] é a constatação da morte física de D.Sebastião, ou seja: «quem vem viver a verdade, já que morreu D.Sebastião»)? Assim, a oração em causa será adjetiva relativa restritiva, substantiva completiva, ou coordenada explicativa? Ainda assim, nenhuma das hipóteses que avancei parece ser inteiramente coerente com o sentido global do poema e da obra. O contexto é o da crença na perenidade do espírito de D. Sebastião, apesar da sua morte física em Alcácer Quibir, e na necessidade de fundar o tal quinto império, posto que os outros quatro já terminaram. Talvez nos queira transmitir o poeta que devemos assumir a morte física do Rei para acreditarmos na sua presença espiritual? Bem sei que a poesia dá azo a uma grande maleabilidade semântica e sintática, mas gostaria de ter a vossa opinião. Parabéns a toda a equipa do Ciberdúvidas pelo vosso excelente trabalho.
Se e infinitivo (norma do Brasil)
Lendo uma tradução feita por Brenno Silveira de um dos contos de Edgar Allan Poe, me deparei com a seguinte construção: «possuir-se boa memória e proceder-se de acordo com as regras do jogo são coisas que constituem etc.» Estaria correto o emprego do pronome se? De acordo com Napoleão Mendes de Almeida não se deve usar se quando o sujeito é um infinitivo. Ele cita na sua gramática: «"é proveitoso ler-se esse livro” o correto é "é proveitoso ler esse livro".» No trecho que me causou dúvida não seria mais correto dizer «possuir boa memória e proceder de acordo…», já que é um sujeito infinitivo? Obrigado.
Impacte vs. impacto: ponto da situação
Sempre utilizei o termo impacte ambiental, mas cada vez mais vejo «este impacte» escrito com o. Para mim impacto está associado a choque/colisão e impacte está associado a questões relacionadas com ambiente. Houve alguma alteração? E quando falamos em termos de efeito, qual usar? Será que depende? Devendo usar impacte sempre que esse efeito está relacionado com ambiente? Por exemplo: «...transformar ideias em soluções com impacto social, ambiental, económico, artístico e cultura.» Obrigada.
Contexto, enunciado e modalidade
Antes de mais, congratulo-vos por este projeto. Gostaria que me esclarecessem quanto à modalidade e ao respetivo valor das frases abaixo, uma vez que não me parecem veicular uma ideia de obrigação, mas antes de certeza e de convicção do locutor. Ainda assim, na segunda afirmação, poderá transparecer um dever de consciência cultural, isto é, uma obrigação moral de respeito pelo legado literário de Almeida Garrett. 1.ª «É como não podermos fazer terra plana ali em Belém sobre a Torre de Belém»; 2.ª «[Há assim uns marcos da chamada escrita para teatro em português] mas não podemos pôr de fora Almeida Garrett». Muito obrigada pela vossa disponibilidade.
«Os que» (elipse) e «o que» (locução pronominal)
Depois de ter feito uma pesquisa no vosso site, gostaria de saber se estou a analisar corretamente, em termos oracionais e sintáticos, as seguintes frases complexas com a presença das expressões «o que» e «os que»: 1) «Estava calor, o que me transtornou.» Oração subordinante: «Estava calor.» Oração subordinada adjetiva relativa explicativa: «o que me transtornou», constituinte que exerce a função sintática de modificador apositivo da oração matriz. Quanto à análise sintática da oração subordinada: «o que» é sujeito e «me» é complemento direto. 2) «Façam o que mandei.» Oração subordinante: «Façam.» Oração subordinada substantiva relativa sem antecedente: «o que mandei», constituinte que desempenha a função sintática de complemento direto. Quanto à análise sintática da subordinada: «o que» é complemento direto do verbo mandar. 3) «Resolvam os que estão na página trinta» («Resolvam os [exercícios] que estão na página trinta»). Oração subordinante: «Resolvam os [exercícios]» Oração subordinada adjetiva relativa restritiva: «que estão na página trinta», constituinte que exerce a função sintática de modificador restritivo do nome [do nome exercícios]. Por seu turno, o constituinte «os que estão na página trinta» exerce a função sintática de complemento direto da matriz. Quanto à análise sintática da subordinada: «que» é sujeito, e «na página trinta», predicativo do sujeito. 4) «Os exercícios para resolver são os que estão na página trinta» Oração subordinante: «os exercícios são os» Oração subordinada relativa restritiva: «para resolver», com a função de modificador restritivo do nome (ou será uma completiva com função de complemento do nome?). Oração subordinada relativa restritiva: «que estão na página trinta», com a função de modificador restritivo do nome. Por seu turno, o constituinte «os que estão na página trinta» exerce a função sintática de predicativo do sujeito. Quanto à análise sintática da última oração subordinada: «que» é sujeito e «na página trinta» predicativo do sujeito A minha dúvida nas frases 3 e 4 é se o predicativo do sujeito [«os que estão na página 30»] não constituirá como um todo uma oração substantiva relativa, sendo a subordinante apenas até ao verbo ser. Isto gera certa estranheza: se a partícula os fizer parte da subordinante (pois a subordinada restritiva inicia-se apenas com que) soa estranho a subordinante ser «Resolvam os». Por outro lado, se «os que estão na página trinta» funcionar como substantiva relativa teríamos uma adjetiva restritiva («que estão na página trinta») encaixada na subordinada substantiva relativa, mas apenas com um verbo para as duas subordinadas («estão»), o que também parece estranho. Peço por isso a vossa ajuda para resolver este dilema, pois sempre tive dificuldades em classificar orações com a presença de «os que» ou de «o que». Votos de bom trabalho.
ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa