Línguas planeadas - Diversidades - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Línguas planeadas

Uma língua artificial ou construída (constructed language ou conlang na literatura da especialidade, em língua inglesa) é aquela cuja fonologia, gramática e vocabulário foram deliberadamente constituídos por um indivíduo ou grupo de indivíduos num período delimitado, em vez de terem evoluído espontaneamente ao longo dos tempos, no seio de um grupo étnico ou de outro tipo de comunidade. São vários os motivos que presidem à construção de uma língua. Enunciá-los-emos em seguida, à medida que falarmos dos vários tipos de línguas construídas.

A classificação que se segue não reúne o consenso dos especialistas, mas as divergências entre os vários autores não são significativas. O que é certo é o termo «artificial» estar a cair em desuso, sobretudo devido às conotações pejorativas que lhe estão associadas e que o afastam do seu significado etimológico («feito com arte»). O termo mais corrente é língua construída ou língua planeada. Este último, encontradiço na literatura da especialidade em alemão (Plansprache), língua na qual se encontram escritas muitas das obras de referência sobre esta matéria, é cada vez mais frequente, embora, de acordo com determinados autores, os dois termos não sejam propriamente sinónimos.

As línguas construídas podem dividir-se, de forma muito resumida, nos seguintes grupos:

Línguas auxiliares internacionais (international auxiliary languages, auxlangs ou IALs na literatura da especialidade, em língua inglesa): as que se destinam sobretudo a funcionar como instrumento de comunicação entre indivíduos de diferentes línguas maternas. As IAL mais relevantes são, por ordem de aparição, o Volapük (1879), o Esperanto (1887), o Ido (1907), o Occidental ou Interlingue (1922), o Novial (1928) e a Interlingua (1951). De todas elas, só o Ido, a Interlingua e, sobretudo, o Esperanto ainda são utilizados de forma significativa, tanto a nível escrito como oral. As restantes contam apenas com escassos adeptos.

Línguas artísticas: as que se destinam primordialmente a integrar uma obra artística (sobretudo literária ou cinematográfica) ou que constituem elas próprias uma obra de arte. As mais importantes são as chamadas línguas ficcionais, entre as quais realçamos o Newspeak, de que se valeu George Orwell (1903-1950) no célebre romance Nineteen Eighty-Four (1949), o Klingon, utilizado na série televisiva Star Trek, e as diversas línguas que figuram nos romances de J. R. R. Tolkien (1892-1973), engendradas pelo próprio autor.

Línguas experimentais: as que se destinam sobretudo à experimentação de hipóteses lingu[ü]ísticas. Nesta categoria englobam-se as chamadas línguas lógicas (como o Lojban, que começou a ser desenvolvido em 1987) e as línguas filosóficas (como o Ro, publicado em 1906).

Refira-se que, entre as línguas ditas «naturais» (a que alguns linguistas preferem chamar «étnicas») e as «construídas», não existe uma dicotomia tão forte como parece à primeira vista, sobretudo se considerarmos as IAL com maior relevância. Por um lado, nestas IAL — sobretudo no Esperanto, a mais expandida e a mais utilizada —, também há palavras ou conotações que surgem e evoluem de forma mais ou menos espontânea, como acontece nas línguas «naturais». Por outro lado, nas línguas ditas «naturais», é cada vez maior o número de palavras cunhadas de forma deliberada e «artificial» por técnicos, cientistas, publicitários e outros profissionais: telefone, televisão, vídeo, áudio, automóvel, triciclo, radar, ecografia, electrocardiograma, cromossoma, telepatia, oftalmologista, otorrinolaringologista, ergonómico, entre tantos outros termos que ouvimos ou usamos diariamente, nada têm de «espontâneo»…

Por último, refira-se o fa(c)to, muito pouco conhecido, mesmo entre os especialistas, de existir uma IAL integralmente elaborada por um português. Trata-se de uma língua naturalista — ou seja, de uma língua construída que basicamente mantém as terminações dos radicais internacionais — da autoria de João Evangelista Campos Lima (1877-1956), advogado, jornalista, poeta, orador, romancista, crítico literário, activista político e… linguista. Após um período dedicado a outra IAL, o Novial (língua mais esquemática, na esteira do Esperanto), durante o qual publicou vários estudos nesse idioma, no jornal Novialiste, e fez parte do LJN (Lingue-Jurie Novial), Campos Lima enveredou por outra via e acabou por publicar, em 1948, às suas expensas, a Gramática Internacional, na qual expôs os princípios da língua que criara, chamada simplesmente Internacional. Esta obra, escrita integralmente no novo idioma, é perfeitamente perceptível a quem domine o português, o espanhol, o italiano ou o francês, como se pode deduzir logo da frase de abertura: «Lo problema de la língua auxiliar internacional, bene que hábia interessado grande número de personas e donato orígine a centenas de projectos, non se trova definitivamente solucionato.» A língua de Campos Lima, apesar de engenhosamente elaborada, parece não ter ficado concluída, e não consta que tenha deixado adeptos. A gramática termina abruptamente na página 244, a meio de uma frase, e não inclui o vocabulário prometido pelo autor no verso da página de rosto: «Lo lector trovará, in lo fine de este libro, la traduccion in 6 línguas de toto lo vocabulário usato in lo texto.» Trata-se de uma obra extremamente interessante, que merecia melhor divulgação...

Sobre o autor

Tradutor de espanhol, francês, inglês, italiano e latim; especialista em Interlinguística, com obra publicada (poesia, contos, estudos linguísticos) em três línguas planeadas (ido, esperanto, interlíngua) em várias revistas estrangeiras; foi professor de Espanhol (curso de tradução) e Português para Estrangeiros no Instituto Espanhol de Línguas; trabalhou como lexicógrafo na Texto Editores; licenciado em fitopatologia pela Universidade Técnica de Lisboa.