Antologia - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
 
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Textos de autores lusófonos sobre a língua portuguesa, de diferentes épocas.

Ó língua de Camões, de estrofes sonorosas,
que Netuno aprendeu para encantar sereias,
idioma que ensinou às virgens amorosas
a ternura que vibra em trovas e epopeias!

Língua de Bernardim, de lendas lacrimosas,
se cantas o furor das guerras, estrondeias,
mas, se falas de amor em xácaras saudosas,
qual meigo rouxinol, suavíssimo, gorjeias!

Língua que fez chorar a França soberana,
com frases de paixão de Freira Lu...
Havia luz pela amplidão suspensa
no azul do céu, vergéis e coqueirais...
e o Lácio, com fulgores divinais,
abrigava de uma virgem a presença...
Era um castelo de ouro, amor e crença,
que igual não houve, nem haverá jamais...
Onde os poetas encontraram ideais
na poesia nova, n'alegria imensa...
A virgem era a Língua Portuguesa,
a mais formosa e divinal princesa,
vivendo nos vergéis de suave aroma!
Donzela mei...

A língua é um instrumento de prazer. Por vezes doce, por vezes amarga.
Para usar e abusar. Para aceitar e para recusar. Para dizer. Para amar. Para
mentir. Para lutar. Para viver.

A língua pode ser meiga, suave, túrgida, bífida, trabalhadeira. Ou então
brusca, áspera, terrível, iracunda, traiçoeira. Como os sentimentos. À flor da
pele.

Esta língua que eu amo

Com seu bárbaro lanho

Seu mel

Seu helénico sal

E azeitona

Esta limpidez

Que se nimba

De surda

Quanta vez

Esta maravilha

Assassinadíssima

Por quase todos os que a falam

Este requebro

Esta ânfora

Cantante

Esta máscula espada

Graciosíssima

Capaz de brandir os caminhos todos

De todos os ares

De todas as danças

Esta voz

Esta língua

Soberba

Capaz de todas as cores

Todos os riscos

De expressão

(E ganha sempre à partida)

Esta língua portuguesa

Capaz de tudo

Como uma mulher realmente

Apaixonada

Esta língua

A nossa magna lingua portugueza

De nobres sons é um thesouro.

Seccou o poente, murcha a luz represa.

Já o horizonte não é oiro: é ouro.

 

Negrou? Mas das altas syllabas os mastros

Contra o ceu vistos nossa voz affoite.

O claustro negro ceu alva azul de astros,

Já não é noute: é noite.

 

26-8-1930

 

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele
delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer
nascimentos —
O verbo tem que pegar delírio.

 

Quando n'alma pesar de tua raça
a névoa da apagada e vil tristeza,
busque ela sempre a glória que não passa,
em teu poema de heroísmo e de beleza.

Génio purificado na desgraça,
tu resumiste em ti toda a grandeza:
poeta e soldado… Em ti brilhou sem jaça
o amor da grande pátria portuguesa.

E enquanto o fero canto ecoar na mente
da estirpe que em perigos sublimados
plantou a cruz em cada continente,

não mor...

Ainda não disse que tenho um Poeta na turma. É o Romão. Faz o possível por "parecer" Poeta, pela maneira como se senta, pelo tom de voz, e até pelo reclamo falado que de si faz: assina "o Poeta"; acha naturalíssimo que eu lhe chame "ó Poeta" e diz aos outros que se não devem admirar de que haja Poetas que escrevem prosa: «Eu também sou Poeta e faço muitas redacções.» Tenho-lhe dito que é preciso ser Poeta princip...

O adjectivo

Dá-me de comer.
Se não fora ele
O que houvera de ser?

(...)

1

De palavras novas também se faz país

neste país tão feito de poemas

que a produção e tudo a semear

terá de ser cantado noutro ciclo.


2

É fértil este tempo de palavras

em busca do poema

que foge na curva das palavras

usadamente soltas e antigas

distantes das verdades dos rios

do quente necessário das brasas

do latejar silencioso das sementes

dentro da terra

quando chove.


3

Proponho um verso novo

para as laranjas (por exemplo) matinais

e os namorados

com que havemos de encher todos os dias

os mercados.


4