DÚVIDAS

«Vida de ator de cinema»: modificadores do nome

Na frase «A vida de ator de cinema é complicada.», pedia-vos que me identificassem a função sintática dos segmentos «de ator» e «de cinema».

Obrigado.

Resposta

Partindo do princípio de que os nomes vida e ator não são nomes argumentais nem «estabelecem relações semânticas de dependência» com os sintagmas «de ator» (no caso de vida) e «de cinema» (no caso de ator), e também não são «nomes de parentesco», «nomes que denotam relações institucionais ou sociais entre pessoas», «nomes que descrevem estados psicológicos de um experienciador», «nomes que denotam obras culturais», «nomes que denotam representações visuais ou gráficas», também designados como «icónicos» (Brito e Raposo, 2013, pp. 1061-1065), mas são «nomes autónomos», por oposição a «nomes dependentes», que «denotam tipicamente entidades do mundo que só podem ser apreendidas quando são postas em relação com outras entidades: p.e., amigo (de alguém), autor (de uma obra), casamento (de alguém com alguém), sequência (de algo), fatia (de um bolo)» (Miguel e Raposo, 2013, p. 715), parece-me poder concluir que se trata, quer em «de ator», quer em «de cinema», de dois modificadores do nome restritivos, o primeiro do nome «vida», o segundo do nome «ator» (são dois «modificadores preposicionais», p. 717). Estes autores classificam estes constituintes como «sintagmas preposicionais especificadores» (Brito e Raposo, 2013, p. 1067).

As frases «A vida é complicada.» e «A vida de ator é complicada.» parecem completas, sem que os nomes vida e ator necessitem de «selecionar expressões de natureza argumental que lhes [completem] o sentido» (ibidem), até porque, como sabemos, «os argumentos de um nome, tal como os seus modificadores, são tipicamente opcionais» (Brito e Raposo, 2013, p. 1061). Na Gramática da Língua Portuguesa (Mateus et alii, 2003), porém, é possível considerar o constituinte «de cinema» como complemento do nome, por se aproximar da designação de «nomes de matéria».

Como se pode concluir, a distinção entre complementos do nome e modificadores nominais é difícil de definir e, por vezes, mesmo um pouco forçada e, também por este motivo, é um tipo de exercício que não deve ser incluído numa análise escolar de ensino secundário. 

Bibliografia consultada:

Miguel, Matilde e Raposo, Eduardo Buzaglo Paiva (2013). Introdução ao Sintagma Nominal. In Raposo, Eduardo Buzaglo Paiva; Nascimento, Maria Fernanda Bacelar do; Mota, Maria Antónia Coelho da; Segura, Luísa; Mendes, Amália. Gramática do Português (Volume I, Capítulo 20, pp. 715-723). Fundação Calouste Gulbenkian.

Brito, Ana Maria e Raposo, Eduardo Buzaglo Paiva (2013). Complementos, Modificadores e Adjuntos no Sintagma Nominal. In Raposo, Eduardo Buzaglo Paiva; Nascimento, Maria Fernanda Bacelar do; Mota, Maria Antónia Coelho da; Segura, Luísa; Mendes, Amália. Gramática do Português (Volume I, Capítulo 27, p. 1061-1070). Fundação Calouste Gulbenkian.

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