Pronúncia de curriculum vitae, novamente - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Pronúncia de curriculum vitae, novamente

Minha dúvida na verdade é em relação ao latim.

No latim, a letra AE (Æ) tem a pronúncia apenas do E, como vemos no Aedes Aegypti, que tem a pronúncia de "Edes Egypti".

No entanto, estou acostumada a ouvir «Curriculum Vitae». Gostaria de saber se, nesse caso, a pronúncia está correta, já que está no final da palavra, e se há alguma regra para isso.

Obrigada.

Isabela Rezende Estudante de RH Volta Redonda, Portugal 11K

Em latim, AE não representa propriamente uma letra, mas um grafema formado por duas letras. Em latim clássico, este grafema representava o ditongo [aj], que se pronunciava aproximadamente como na nossa palavra “pai”. Utilizava-se tanto em palavras de origem latina (que se grafavam com AI antes do segundo século a. C.) como em termos importados do grego, para transcrever o ditongo αι (por exemplo, SPHAERA, «esfera», do grego ΣΦΑΙΡΑ). Este ditongo, no entanto, não se manteve, e acabou por se reduzir a [ε] (ou seja, e aberto). Em inscrições que datam dos séculos I e II da nossa era, encontram-se, por exemplo, as grafias NERVAE e QVESTVS, em vez de NAERVAE e QVAESTVS, respectivamente.

Esta prolação manteve-se durante toda a Idade Média (altura em que se começou a recorrer à ligadura Æ para representar o grafema) e entrou pelos tempos modernos, até meados do século XX, altura em que cada vez mais foneticistas internacionais do latim clássico começaram a propugnar a chamada «pronúncia restaurada», ou seja, a do latim literário do período clássico, no tempo de Cícero, César e Virgílio. Hoje é esta a pronúncia adoptada em quase todas as universidades nacionais e estrangeiras e a utilizada nos congressos internacionais de latim. De acordo com a mesma, AE pronuncia-se [ai], seja qual for a posição que o ditongo ocupe na palavra. Portanto, segundo a pronúncia restaurada, o AE de VITAE articula-se exactamente como o AE de AEDES, ou seja [ai]. 

No entanto, é importante fazer aqui uma ressalva. Embora a pronúncia restaurada seja utilizada nas universidades e nos congressos de latinistas, ela continua a ser do desconhecimento dos leigos. Ignoram-na mesmo os que aprenderam latim no secundário, no tempo em que era obrigatório, se o fizeram antes de essa pronúncia ter sido adoptada na escola onde foi lhes leccionada a disciplina. Entre os advogados e cientistas, por exemplo, as palavras ou expressões latinas são geralmente articuladas de acordo com a pronúncia tradicional.

O mesmo se pode afirmar do público em geral, que desconhece a pronúncia restaurada e profere da forma tradicional aquelas palavras e expressões latinas que caíram no domínio público (sui generis, ex aequo, entre muitas outras, para não falar da mais universal de todas: etc, sigla que representa a locução et cetera, ou seja, «os restantes»). De acordo com a pronúncia tradicional, curriculum vitae pronuncia-se currículum víte, e é esta que deve preferir-se. Pretender impor a articulação vítai (ou mesmo wítai), de acordo com a pronúncia restaurada, parece-me um exagero ou mesmo um pretensiosismo tão grande como seria exigir que se pronunciasse etc. (et cetera) da mesma forma que os romanos do tempo de Cícero: et kétera

Também é de evitar a prolação vitái, como às vezes se ouve por aí, pois essa nem é tradicional nem clássica. É apenas um despautério…

Gonçalo Neves
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: substantivo
Áreas Linguísticas: Etimologia; Fonética Campos Linguísticos: Pronúncia; Fenómenos fonéticos