O uso do acento grave na pronúncia figurada - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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O uso do acento grave na pronúncia figurada

Tenho dúvidas num assunto do Dicionário Priberam. Vou mostrar a seguinte definição:

«objecção | s. f. ob·jec·ção |èç| substantivo feminino 1. Argumento com que se replica ou se impugna. 2. Dúvida. 3. Dificuldade. • Grafia alterada pelo Acordo Ortográfico de 1990: objeção. • Grafia no Brasil: objeção.»

Ora, a transcrição fonética de "OBJECÇÃO" no Dicionário Infopédia, por exemplo, é: ɔbʒɛˈsɐ̃w̃. No Dicionário Priberam, que demonstra qual é a pronúncia que deve ser efectuada para cada vocábulo sem exibir uma transcrição fonética completa, mas observando em detalhe a parte do vocábulo que, quiçá, poderá manifestar maior dúvida no falante, a nota que observamos para "OBJECÇÃO" é a seguinte: |èç|.

A minha interrogação é se este "è" de |èç| está ou não correcto, se deveria ser um "é" ("E" com acento agudo e não grave, como se vê em "DILECTO" (|ét|)) visto que a transcrição fonética do "E" só pode ser manifesta com os seguintes exemplos: [e] (dedo), [ɛ] (fé), [ɨ] (metal) e [ẽ] (vento).

Podeis explicar-me em que transcrições fonéticas [...] o Dicionário Priberam se base[ou] para dizer que o "JECÇ" de "OBJECÇÃO" deve ter esta fonética |èç|? É que o mesmo acontece com "ABJECÇÃO" (|èç|) e "EFECTUAR" (|èt|) e "PROJECTAR" (|èt|) e outros vocábulos similares, mas "PROJECTO" (|ét|) e "CORRECTO" (|ét|) já se encontram da forma a que estou acostumado, com "é" com acento agudo.

Auxiliai-me nisto, por favor. Muito obrigado pela vossa atenção.

Lanito Molita Estudante Lisboa, Portugal 660

O procedimento adotado pelo Dicionário Priberam é coerente e baseia-se num princípio ortográfico que hoje só se aplica a poucos casos.

Até 1973, empregava-se o acento grave em vogais abertas que ocorressem em sílabas átonas, ou seja, o acento assinalava uma vogal que, apesar de átona, era aberta. Figurava, por exemplo, na grafia de advérbios de modo derivados de adjetivos com acentuação esdrúxula: rápido → ràpidamente (hoje rapidamente). Estas grafias desapareceram em grande parte na sequência de uma alteração feita em 1973 ao acordo ortográfico de 1945. Note-se, porém, que o acento grave continua a ser usado nas contrações à, àquele/àquela/àquilo e àqueloutro/àqueloutra.

Em relação ao uso dos acentos grave e agudo nas indicações de pronúncia, é totalmente legítimo o procedimento do Dicionário Priberam: o acento grave da notações |èç| e |èt| indica um e aberto em sílaba átona como ocorre em objeção, abjeção, efetuar, projetar; o acento agudo da notação |ét|, um e aberto em sílaba tónica em dileto, projeto e correto.1

Evidentemente que esta notação da pronúncia, que se encontra em obras da dicionarística portuguesa mais antiga, é muito diferente da utilização dos símbolos do Alfabeto Fonético Internacional (AFI): neste código, [e] transcreve o chamado e fechado de dedo;  [ɛ], o e aberto de fé; [ɨ], o chamado e mudo que, no português europeu, ocorre sempre em posição átona, como sucede em metal; e [ẽ], para indicar o e nasal de casos como vento e ventania. Quanto à notação do acento tónico, representa-se este pelo sinal ˈ, geralmente colocado imediatamente à esquerda da representação da sílaba tónica: [ɔbʒɛˈsɐ̃w̃].

1 O consulente mantém o c mudo, conforme a ortografia anterior à que vigora atualmente, a do Acordo Ortográfico de 1990: objecção, abjecção, efectuar, projetar, dilecto, projecto, correcto.

Carlos Rocha
Campos Linguísticos: Atestação/Significado de palavras