DÚVIDAS

O uso de eleição no singular e no plural

Nas notícias recentes sobre o assunto, sempre ouvi «eleições presidenciais», parecendo-me mais apropriado o uso do singular. Mas quem sou eu?!

Agradeço esclarecimento.

Resposta

A língua nem sempre se comporta da forma lógica que se esperaria e, resultado de muitos fatores, acaba por refletir contradições, irregularidades, contextos, convenções sociais, vícios linguísticos, a própria cultura. Na verdade, é a língua a ser língua, a ser um organismo vivo (pragmática linguística), em que milhões de falantes põem em causa/desafiam a gramática normativa.

Neste caso particular, e usando a tal «lógica», o item lexical «eleição presidencial», na cabeça de alguns falantes, reflete um único cargo a preencher (Presidente da República) e um único pleito nacional que, como sabemos, pode ter dois momentos (se existir uma segunda volta). Talvez por esta razão o consulente considere «mais apropriado o uso do singular» e o argumento parece-me lógico e correto.

No entanto, a verdade é que, no português europeu, «eleição» é um daqueles nomes que aceitam singular e plural, «mas com nítida preferência para o plural» (Raposo, 2020). Quando escrevo «com nítida preferência para o plural», a intenção é a de registar a força do uso do plural por uma maioria considerável de falantes.

O sítio da Comissão Nacional de Eleições (CNE) é exemplo deste uso aleatório, fazendo alusão a «Eleição para o Presidente da República», mas com referência, em vários separadores a «Eleições presidenciais»; a própria legislação (LEI ELEITORAL do PRESIDENTE DA REPÚBLICA, Decreto-Lei  n.º 319-A/76, de 3 de maio, pág. 39) faz referência, por exemplo, no Artigo 116.º, à «Nulidade das Eleições» (e não à Nulidade da Eleição). No sítio do Ministério da Administração Interna (MAI), sobre os resultados dos escrutínios, usa-se «Eleições Presidenciais».

Os media de referência –  como o Expresso, a Lusa, o Observador, o Público, a SIC Notícias, etc. –, quase invariavelmente, usam «eleições presidenciais» ou apenas «presidenciais», como o fazem em relação a «eleições legislativas» ou tão-só «legislativas» e a «eleições autárquicas» ou, simplesmente, «autárquicas», ainda que, nestes dois últimos exemplos, e usando o argumento de lógica do consulente, se elejam múltiplos representantes (os 230 deputados, no caso das legislativas) ou, no caso das autárquicas, ocorram vários pleitos simultâneos para se elegerem os diversos órgãos para as câmaras e assembleias municipais e juntas de freguesia.

Bibliografia consultada:

Mota, Maria Antónia (2020). Morfologia do Nome e do Adjetivo. In Raposo, Eduardo Buzaglo Paiva; Nascimento, Maria Fernanda Bacelar do; Mota, Maria Antónia Coelho da; Segura, Luísa; Mendes, Amália. Gramática do Português (Volume III, Capítulo 55, p. 2888). Fundação Calouste Gulbenkian. 

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa