O tempo e o modo das orações introduzidas pela locução «mesmo se» - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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O tempo e o modo das orações introduzidas
pela locução «mesmo se»

Em que contexto e com que modo e tempo se introduz a locução «mesmo se»?

Aja Vedder Estudante Bucareste, Roménia 1K

A locução «mesmo se» introduz orações adverbiais concessivas em construções com valor hipotético cujos verbos podem ocorrer nos seguintes tempos e modos:*

– na oração principal: presente («saímos») ou futuro do indicativo («sairemos») ou, ainda, auxiliar ir no presente do indicativo + infinitivo («vamos sair»); na oração concessiva: futuro do conjuntivo («chover»).

Exemplo: «Mesmo se chover, nós saímos/sairemos/vamos sair.»

A mesma locução figura igualmente em construções com valor contrafactual, isto é, em que o conteúdo da oração concessiva contraria a situação efetivamente verificada; em tal construção, os verbos ocorrem:

– na oração principal: o condicional composto («teria visto») ou mais-que-perfeito composto do indicativo («tinha visto»); na oração concessiva: o mais-que-perfeito do conjuntivo («tivesse chegado»).

Exemplo: «Ele não teria visto/tinha visto o espetáculo, mesmo se tivesse chegado a tempo.»

Fonte da informação e dos exemplos: M.ª Helena Mira Mateus et al. Gramática da Língua Portuguesa (Lisboa, Editorial Caminho, 2003, 719/720).

Acrescente-se que o imperfeito do conjuntivo («chegasse«) é possível na oração subordinada, tal como acontece nas orações condicionais: «Ele não veria/via o espetáculo, mesmo se chegasse a tempo» (cf. construção condicional: «Ele não veria/via o espetáculo, se chegasse a tempo»).

* O caráter híbrido da construção com «mesmo se» permite incluí-la igualmente entre as orações concessivas. Na Gramática de Usos do Português (São Paulo, Editora UNESP, 2000, pág. 847), a  linguista brasileira Maria Helena de Moura Neves classifica a construção condicional em que participa «mesmo se» como «condicional com matiz concessivo», encarando-a como «[...] fronteira entre uma relação condicional e uma relação concessiva [...]». A esta proposta, bem como à de M.ª Helena Mira Mateus et al. (2003) – citada na resposta –, faz referência o artigo "'Mesmo se der certo' ou 'mesmo que dê certo'?" que o escritor e jornalista Sérgio Rodrigues publicou na revista Veja, contestando certos normativistas que condenam o uso da locução «mesmo se». Agradeço a Luciano Eduardo de Oliveira a chamada de atenção para este artigo.

Carlos Rocha
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: locução
Áreas Linguísticas: Morfologia Flexional; Sintaxe Campos Linguísticos: Tempo/Modo/Pessoa/Número (verbos); Orações