O pretérito perfeito no discurso indireto - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
O pretérito perfeito no discurso indireto

Porque é que nesta frase o discurso indireto é feito desta forma?

«... a gente começou a conversar sobre a festa e ele disse-me que quando me ouviu a falar ... »

Porque «ouviu», e não «ouvira»? Ou «quando te tinha ouvido a falar»?

Esta frase causou muita confusão aos alunos, e eu também fiquei um pouco confuso. As regras são claras, mas aqui fugiu um pouco às regras.

Muito obrigado

Paulo Sérgio Fernandes Silva Professor de língua portuguesa para estrangeiros Frankfurt am Main, Alemanha 187

O discurso indireto é um processo de reproduzir enunciados. Neste, as falas reproduzidas surgem, normalmente, no interior de orações subordinadas substantivas completivas introduzidas por verbos declarativos (cf., por exemplo, Cunha e Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo. Ed. João Sá da Costa, pp. 629-635).

Numa perspetiva escolar, as gramáticas definem um conjunto de regras para a transposição do discurso direto para o indireto (cf., por exemplo, Nascimento e Lopes, Domínios – Gramática da Língua Portuguesa. Plátano Editora, pp. 285-286). Aqui, afirma-se que um verbo que, no discurso direto, se encontre no presente do indicativo passa para o pretérito imperfeito do indicativo no discurso indireto (1) e um verbo que se encontre no pretérito perfeito do indicativo, no discurso direto, passa para o pretérito mais-que-perfeito do indicativo no discurso indireto (2):

(1) «Vou ao Japão, disse o Rui.» / «O Rui disse que ia ao Japão.»

(2) «Fui ao Japão, disse o Rui.» / «O Rui disse que tinha ido / fora ao Japão.»

Não obstante, entre os usos quotidianos, sobretudo no plano da oralidade, a forma do pretérito perfeito do indicativo parece ter tendência a impor-se às restantes, independentemente do tempo verbal do enunciado de origem, fugindo, deste modo, um pouco ao que encontra convencionado.

Neste contexto, e uma vez que não temos acesso ao enunciado original ou a mais elementos do contexto, cabe ao consulente determinar qual a situação que aqui deve ser considerada para avaliar o grau de correção dos enunciados: uma perspetiva mais escolar e, portanto, mais formal ou uma perspetiva mais informal e, logo, mais livre.

Carla Marques
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: verbo
Áreas Linguísticas: Discurso/Texto Campos Linguísticos: Tempo/Modo/Pessoa/Número (verbos)