Tem a consulente razão no juízo de correção que faz sobre a possibilidade de uso do operador não com a locução adverbial «por acaso».
Com efeito, o operador de negação não pode tanto negar constituintes oracionais, como em (1), como itens lexicais1 pertencentes a diferentes classes ou grupos de palavras, como por exemplo o nome em (2), o grupo adjetival em (3) ou o advérbio em (4):
(1) «Ele não come carne.»
(2) «Ele viu não os rapazes mas as raparigas.»
(3) «Ele apresentou um filme não particularmente interessante.»
(4) «Ele chegou não ontem mas hoje.»
Ora, no caso agora em apreço, o operador não incide sobre a locução adverbial «por acaso», permitindo o contraste entre a negação em (5) e o seu contrário em (6):
(5) «Não por acaso a tua casa teve […]»
(6) «Por acaso a tua casa teve […]»
Note-se que a estrutura apresentada em (7) é também possível, constituindo um outro tipo de negação: a negação oracional.
(7) «Não foi por acaso que a tua casa teve […]»
As estruturas (5) e (7) são, assim, ambas corretas e equivalentes.
Disponha sempre!
1. Para mais informações, Mateus et al., Gramática Portuguesa. Caminho, pp. 771 e ss.