Determinantes indefinidos e demonstrativos - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Determinantes indefinidos e demonstrativos

Agradecia o esclarecimento pertinente sobre esta dúvida:

«Transformar numa outra pessoa.» Determinante indefinido (DI) ou/e demonstrativo (DD)?

DD

«Uma outra» ou «numa outra» indica a qualidade (posição) de um ser em relação a outro: já não é este, é diferente deste.

DI

Um demonstrativo expressa localização no espaço e no tempo. Não é o que acontece nesta frase.

Fernando Lamas Informático (reformado) Mem Martins, Portugal 8K

Estamos perante o artigo indefinido uma e o determinante indefinido outra. Como refere o consulente, os determinantes demonstrativos têm «um valor deítico ou anafórico» (Dicionário Terminológico), ou seja, estabelecem ligação com a situação, o contexto ou com outros elementos (interlocutores, objetos), como nas seguintes frases:

1) «Este barco é maior do que aquele» (valor deítico, referindo-se a algo presente no contexto).

2) «O João tem o colesterol mais alto do que o Carlos, embora este seja mais novo» (valor anafórico, recuperando algo dito antes na frase).

Quando o consulente diz que o outro «já não é este, é diferente deste» como forma de parafrasear o enunciado «transformar numa outra pessoa», está, se me permite o gracejo, a fazer batota, visto que o determinante demonstrativo este que utilizou tem um valor deítico que não está presente na frase original.

Por outro lado, ao referir que «”uma outra" ou "numa outra" indica a qualidade (posição) de um ser em relação a outro», também encontramos este tipo de relação noutras situações em que não usamos determinantes demonstrativos e onde não há valor deítico ou anafórico. Por exemplo:

3) «O João passou de empregado de balcão a gerente.»

4) «Depois do casamento, o João passou a ser o cunhado mais novo do Carlos.»

5) «Depois de ser eleito, ele transformou-se numa outra pessoa.»

O tipo de relação que os determinantes demonstrativos estabelecem (a dêixis ou díxis) diz respeito à situação, ao contexto e aos interlocutores da enunciação. Faz parte do tipo de operações referidas por Inês Duarte e Fátima Oliveira em Gramática da Língua Portuguesa (Mira Mateus et al.) como operações de individuação: «fazem corresponder a uma dada expressão linguística um único objeto identificado para o locutor, e pressuposto por este como identificável pelo(s) interlocutor(es)» (op. cit., p. 222).

No caso da expressão «transformar-se numa outra pessoa», integra-se naquilo a que as referidas linguistas denominam, dentro das operações com indefinidos, leitura não específica. Trata-se de casos em que «o interlocutor não conhece qual, de todas as entidades singulares possíveis do conjunto considerado, é aquela a que o discurso se refere» (op. cit., p. 225), e nos quais o foco é realçar um nexo de causalidade ou de intencionalidade. Por outras palavras, aquilo que importa é o processo «transformar-se», ao passo que noutro tipo de operação com indefinidos, como a leitura específica, já se estabelece um referente — ainda que não definido — dentro do conjunto considerado, como na frase «Transformar-se numa pessoa melhor».

Miguel Moiteiro Marques
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: determinante
Áreas Linguísticas: Morfologia; Semântica Campos Linguísticos: Deixis; Anáfora/Co-Referência