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«Dão-se (ou dá-se?) as boas-vindas à Primavera»

Acabei agora de ouvir a TSF dizer:

«Na Culturgeste dão-se as boas-vindas à Primavera.»

Deveria ser «dá-se» ou não? 

A propósito permitam-me que diga: 

O Ciberdúvidas tem óptimos analistas e tira muitas dúvidas. Penso que com tanta boa gente poderia e deveria ser mais pró-activo. 

Muitos dos problemas da língua portuguesa são provocados ou espalhados pelos profissionais da comunicação social. 

Porquê não tentar um Português simples, claro e imune a modismos que os bons profissionais viessem a adoptar?

Sebastião Oliveira Portugal 7K

«Na Culturgest dão-se as boas-vindas à Primavera.»

A questão que o consulente coloca é uma variante da problemática do «Vende-se casas» ou «Vendem-se casas». O que importa saber é qual é, afinal, a função daquele se. Será um pronome indefinido, com função de sujeito, que exija, por isso, o verbo no singular? Ou será uma partícula apassivante que exerça funções de complemento agente da passiva, sendo o sujeito as boas-vindas, que, como se trata de uma expressão que está no plural, exige um verbo no plural?

Por outras palavras qual será a frase que serve de paráfrase ao exemplo em apreço?

1 – Na Culturgest alguém dá as boas-vindas à Primavera?

2 – Na Culturgest são dadas as boas-vindas à Primavera?

Como poderá imaginar, não serei eu quem vai conseguir secar a fonte que tanta tinta tem feito correr. Posso apenas dizer-lhe que grande número de estudiosos, para não dizer a maioria – é o caso aqui e aqui, no Ciberdúvidas –, em casos como este preferem a estrutura com o verbo no plural, por haver alguma tendência na língua portuguesa para construções passivas com estas caraterísticas. Portanto: «Na Culturgest dão-se as boas-vindas à Primavera.» 

Finalmente, o Ciberdúvidas agradece em nome dos seus colaboradores as palavras simpáticas. Partilhamos a ideia de que falta uma entidade reguladora, mas não castradora, da língua portuguesa. Gostaríamos de ter estrutura e apoio para poder ajudar a desempenhar esse papel de forma institucional. Quem sabe, um dia?!

N.E. – (20/03/2017) Com as novas regras do Acordo Ortográfico de 1990*, tal como os nomes dos dias da semana e dos meses, os das estações do ano passaram a escrever-se com inicial minúscula. É o caso de primavera. Logo: «Na Culturgest dão-se as boas-vindas à primavera.» 

*Vide b) do ponto 1 da Base XIX: Das Minúscusas e Maiúsculas:

«A letra minúscula inicial é usada:

a) Ordinariamente, em todos os vocábulos da língua nos usos correntes;

b) Nos nomes dos dias, meses, estações do ano: segunda-feira; outubro; primavera;

c) Nos bibliónimos/bibliônimos (após o primeiro elemento, que é com maiúscula, os demais vocábulos podem ser escritos com minúscula, salvo nos nomes próprios nele contidos, tudo em grifo): O Senhor do Paço de Ninães, O senhor do paço de Ninães, Menino de Engenho ou Menino de engenho, Árvore e Tambor ou Árvore e tambor;

d) Nos usos de fulano, sicrano, beltrano;

e) Nos pontos cardeais (mas não nas suas abreviaturas): norte, sul (mas: SW sudoeste);

f) Nos axiónimos/axiônimos e hagiónimos/hagiônimos (opcionalmente, neste caso, também com maiúscula):

senhor doutor Joaquim da Silva, bacharel Mário Abrantes, o cardeal Bembo;

santa Filomena (ou Santa Filomena); 

g) Nos nomes que designam domínios do saber, cursos e disciplinas (opcionalmente, também com maiúscula):

português (ou Português), matemática (ou Matemática); línguas e literaturas modernas (ou Línguas e Literaturas Modernas).» Já Páscoa e restantes nomes de festividades continuam a escrever-se com maiúculas iniciais  conforme a e) do 2.º parágrafo da mesma Base XIX: «A letra maiúscula inicial é usada:

a) Nos antropónimos/antropônimos, reais ou fictícios: Pedro Marques; Branca de Neve, D. Quixote;

b) Nos topónimos/topônimos, reais ou fictícios: Lisboa, Luanda, Maputo, Rio de Janeiro, Atlântida, Hespéria;

c) Nos nomes de seres antropomorfizados ou mitológicos: Adamastor; Neptuno/Netuno;

d) Nos nomes que designam instituições: Instituto de Pensões e Aposentadorias da Previdência Social;

e) Nos nomes de festas e festividades: Natal, Páscoa, Ramadão, Todos os Santos;

f) Nos títulos de periódicos, que retêm o itálico: O Primeiro de Janeiro, O Estado de São Paulo (ou S. Paulo);

g) Nos pontos cardeais ou equivalentes, quando empregados absolutamente: Nordeste, por nordeste do Brasil, Norte, por norte de Portugal, Meio-Dia, pelo sul da França ou de outros países, Ocidente, por ocidente europeu, Oriente, por oriente asiático;

h) Em siglas, símbolos ou abreviaturas internacionais ou nacionalmente reguladas com maiúsculas, iniciais ou mediais ou finais ou o todo em maiúsculas: FAO, NATO, ONU; H2O; Sr., V. Ex.ª;

i) Opcionalmente, em palavras usadas reverencialmente, aulicamente ou hierarquicamente, em início de versos, em categorizações de logradouros públicos (rua ou Rua da Liberdade, largo ou Largo dos Leões), de templos (igreja ou Igreja do Bonfim, templo ou Templo do Apostolado Positivista), de edifícios (palácio ou Palácio da Cultura, edifício ou Edifício Azevedo Cunha).

Obs.: As disposições sobre os usos das minúsculas e maiúsculas não obstam a que obras especializadas observem regras próprias, provindas de códigos ou normalizações específicas (terminologias antropológica, geológica, bibliológica, botânica, zoológica, etc.), promanadas de entidades científicas ou normalizadoras reconhecidas internacionalmente.»

Edite Prada