O caso apresentado configura uma situação de coesão lexical processada por meio de correferência não anafórica.
A coesão lexical assenta na relação de palavras que, ao longo de um texto, ou se repetem ou são substituídas por outras que as retomam como sinónimos, antónimos, parte-todo ou classe-elemento, entre outras possibilidades. Estes processos constroem uma cadeia referencial ao longo do texto que depende do facto de as palavras introduzidas serem correferenciais, ou seja, de apontarem para o mesmo referente da palavra que abre a cadeia referencial.
A coesão lexical de um texto pode também ser assegurada por meio de processos de correferência não anafórica. Estes são processos por meio dos quais palavras que têm referências independentes se referem à mesma entidade (ou seja, são correferentes). É o que acontece em (1):
(1) «O João ainda não chegou. O marido da Rita está sempre atrasado.»
Neste caso, «João» e «Marido da Rita» são referencialmente independentes. Todavia, neste texto particular, estabelecem uma relação de correferência, uma vez que se referem à mesma entidade extralinguística. Todavia, não são termos anafóricos porque a referência de um não depende da de outro.
O mesmo processo tem lugar no excerto em análise: «visitante do passado» e Gulliver têm a mesma referência, todavia, não são anafóricos porque são independentes do ponto de vista referencial. O nosso conhecimento extralinguístico, que nos permite saber que Gulliver foi um viajante, que passou por vários reinos, estabelece a relação correferencial entre os dois termos.
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