«Cancro do....» vs. «cancro de...» II - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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«Cancro do....» vs. «cancro de...» II

Apesar das abonações citadas pela consultora Sara Mourato, em 27/2/2019, em que se omite o artigo definido, creio que ele deve ser obrigatório quando se nomeiam órgãos do corpo humano.

Dizemos, por exemplo: «o pâncreas produz insulina» (e não «pâncreas produz insulina»); «o coração batia forte» (e não «coração batia forte»); «o útero compõe o aparelho reprodutor feminino» (e não «útero compõe o aparelho reprodutor feminino»). Portanto também: «moléstia do pulmão», «ele sofre do coração», «tumor da próstata», «inflamação dos rins», sempre com o artigo.

Cordialmente.

Fernando Bueno Engenheiro Belo Horizonte, Brasil 118

Neste contexto, é legitimo o uso da expressão sem artigo definido, pelo menos depois da preposição de. Com efeito, do ponto de vista descritivo e prescritivo, não há nada que conteste tal uso com nomes, nem mesmo com nomes referentes a órgãos do corpo.

Note-se que em «cancro de mama»/«cancro da mama», assim como em tantas outras doenças oncológicas, a expressão constituída por de e o nome do órgão tem valor relacional, sendo substituível por um adjetivo ou por um termo semanticamente afim: «cancro de mama»/«cancro mamário», «cancro do fígado»/«cancro hepático». Fora do contexto da medicina, ocorrem também nomes sem artigo definido; por exemplo: em «dia de inverno», «de inverno» tem valor relacional, substituível pelo adjetivo invernoso – «dia invernoso»; ou mesmo «época de ouro», com praticamente a mesma significação de «época áurea».  

Em relação aos exemplos apresentados, como «o útero compõe o aparelho reprodutor feminino», em vez de «útero compõe o aparelho reprodutor feminino», o consulente afirma que não se pode omitir o artigo. No entanto Celso CunhaLindley Cintra (Nova Gramática do Português Contemporâneo, pág. 237) apresentam-nos casos de nomes compatíveis com a omissão de artigo definido, verificando-se um deles «quando queremos indicar a noção expressa pelo substantivo de um modo geral, isto é, na plena extensão do seu significado: "foi acusado do crime" (acusação precisa); "foi acusado de um crime" (acusação vaga); "foi acusado de crime" (acusação mais vaga)». 

Sara Mourato
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: determinante
Áreas Linguísticas: Semântica; Sintaxe Campos Linguísticos: Semântica nominal; Regência