Usos da preposição + omissão de artigo - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Usos da preposição + omissão de artigo

Na frase «chegou ao estábulo toda molhada», o artigo definido ao resulta da contracção da preposição a com o artigo o.
No entanto, se em vez de um estábulo for uma casa, eu diria «chegou a casa toda molhada» (sem fazer a contracção da preposição a com o artigo a).
Nesta frase poderá surgir a dúvida se quem chegou foi a casa ou se alguma coisa chegou a casa toda molhada.
Penso que «chegar a casa» e «chegar à casa» têm sentidos diferentes, mas o facto é que se o destino for masculino a questão não se coloca pois a contracção dissipa as dúvidas.
É errado não fazer a contracção ou o correcto seria dizer «chegou à casa toda molhada» (fazendo a contracção da preposição a com o artigo a)?
Será que é errado apenas porque estou a omitir o sujeito e, por este motivo, é mais difícil inferir o sentido da frase?

Fernando Martins Analista de Sistemas Informáticos Loures, Portugal 3K

A situação que o consulente apresenta é muito interessante. Analisemos, antes de mais, um pequeno corpus:

(1) Chegou ao estábulo.
(2) Chegou a casa.
(3) Chegou a casa de um amigo.
(4) Chegou à casa de um amigo.
(5) Chegou à casa paterna.
(6) Chegou à praia.
(7) Chegou a Lisboa.
(8) Chegou à cidade de Lisboa.
(9) Chegou ao Porto.
(10) Chegou ao Luxemburgo.
(11) Chegou a França.
(12) Chegou à França.
(13) Chegaram a toda a parte.

Se, em vez do verbo chegar, tivéssemos o verbo ir, o resultado seria igual. Com efeito, qualquer destes verbos permite designar uma deslocação, focando com maior ou menor relevo o ponto de chegada.
O problema não está no verbo, mas, sim, no facto de alguns nomes, ou substantivos, femininos, que designam lugares não serem obrigatoriamente precedidos do artigo definido feminino, a. É essa possibilidade que faz com que em alguns casos não haja contracção, por não haver artigo para contrair. Evanildo Bechara, na Moderna Gramática Portuguesa, 2001, página 308, analisa esta situação e diz que, para saber se um substantivo pode ou não ocorrer sem artigo, se devem fazer testes construindo frases que contenham esse substantivo precedido das preposições de, em ou por. Se nas frases assim obtidas não houver contracção, então o artigo não está presente e também não se verifica a contracção entre a preposição a e o artigo – inexistente – a. Vejamos:

Preposição de:
(14) Vem do estábulo.
(15) Vem de casa.
(16) Vem de casa de um amigo.
(17) Vem da casa de um amigo.
(18) Vem da casa paterna.
(19) Vem da praia.
(20) Vem de Lisboa.
(21) Vem da cidade de Lisboa.
(22) Vem do Porto.
(23) Vem do Luxemburgo.
(24) Vem de França.
(25) Vem da França.
(26) Vêm de toda a parte.

Preposição em:

(27) Está no estábulo.
(28) Está em casa.
(29) Está em casa de um amigo.
(30) Está na casa de um amigo.
(31) Está na casa paterna.
(32) Está na praia.
(33) Está em Lisboa.
(34) Está na cidade de Lisboa.
(35) Está no Porto.
(36) Está no Luxemburgo.
(37) Está em França.
(38) Está na França.
(39) Estão em toda a parte.

Preposição por:

(40) Passou pelo estábulo.
(41) Passou por casa.
(42) Passou por casa de um amigo.
(43) Passou pela casa de um amigo.
(44) Passou pela casa paterna.
(45) Passou pela praia.
(46) Passou por Lisboa.
(47) Passou pela cidade de Lisboa.
(48) Passou pelo Porto.
(49) Passou pelo Luxemburgo.
(50) Passou por França.
(51) Passou pela França.
(52) Passaram por toda a parte.

Do exposto, podemos concluir que há substantivos femininos designando espaço que, em determinadas construções, não são precedidos do artigo. Há ainda outros, como se verifica analisando os exemplos (3), (4), (10), (11) e seus correspondentes nas sequências seguintes, que admitem tanto a presença do artigo como a sua ausência. Isso acontece quer indiquem o ponto de chegada, com o uso da preposição a, quer se refiram ao ponto de partida precedidos da preposição de, quer informem acerca do local de permanência com a preposição em, quer, ainda, designem o ponto de passagem através da preposição por.
Por explicar fica, porque o estudo respectivo não caberia no âmbito desta resposta, a razão que conduz a este comportamento dos nomes femininos que designam locais.

Edite Prada