No verso «Queres‑me passar além?», do Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente, o pronome me é, de facto, complemento direto.
No português vicentino e mesmo contemporâneo, o verbo passar significa «transportar alguém para o outro lado», valor em que funciona como transitivo direto. Assim, a pessoa transportada («me») é o seu objeto direto.
A posição do clítico («queres‑me passar» / «queres passar‑me») não altera esta função: o pronome continua a depender semanticamente do verbo passar.
Esse comportamento explica‑se por um fenómeno conhecido como subida do clítico, muito comum com verbos como querer. A própria Gramática do Português da Fundação Calouste Gulbenkian (pág. 1243) sublinha que querer permite subida do clítico mesmo não sendo auxiliar, o que confirma que a posição junto de querer não muda o papel sintático do pronome.
Além disso, a forma pronominal usada é a acusativa, típica do complemento direto.
No português contemporâneo, a estrutura mantém‑se natural e interpretável com o mesmo valor: «Queres passar‑me para o outro lado?» ou «Podes levar‑me para o outro lado?». Nestes equivalentes modernos, a pessoa deslocada continua a ser objeto direto, o que confirma a leitura no texto de Gil Vicente.