Análise da frase «O sujeito lírico dirige-se à natureza» - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Análise da frase «O sujeito lírico dirige-se à natureza»

Na frase «O sujeito lírico dirige-se à natureza.», quais as funções sintáticas de:

a) «lírico»? (modificador do nome restritivo ou complemento do nome?)

b) «à natureza»? (complemento indireto ou complemento oblíquo?)

Obrigada.

Aurora Monteiro professora Castelo de Paiva, Portugal 42

Na frase apresentada, o adjetivo lírico tem a função de modificador do nome restritivo e o constituinte «à natureza», a função de complemento oblíquo.

O nome sujeito é um nome autónomo, ou seja, não seleciona um complemento, pelo que o adjetivo incide sobre ele associando-lhe propriedades adicionais, não necessárias, e restringindo o seu sentido1, funcionando, deste modo, como um modificador do nome.

Já o verbo dirigir-se é um verbo pronominal que rege a preposição a2, com o sentido de “ter como destinatário” (Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea). Neste caso, coloca-se a questão de identificar a função sintática desempenhada pelo constituinte introduzido pela preposição a: complemento indireto ou complemento oblíquo?

Como já referimos aqui, o complemento indireto, em geral, identifica-se pela possibilidade de substituição pelo pronome pessoal clítico dativo lhe, substituição que, no caso em apreço, parece oferecer dúvidas:

(1) «?O sujeito lírico dirigiu-se-lhe.»

No entanto, no Corpus do Português de Mark Davies é possível assinalar três casos deste uso como pretérito perfeito:

(2) «[…] dirigiu-se-lhe de a seguinte forma: " então não morreste?» (Jornal Público)

(3) «[…] este dirigiu-se-lhe: " Mas eu tenho de aturar isto? "» (Jornal Público)

(4) «Cristo dirigiu-se-lhe diretamente, reclamando mais um apóstolo […]» (Jornal Sol)

Não obstante a dúvida que estes usos anteriores podem levantar relativamente à função do constituinte substituído pelo pronome lhe, é importante que se recorde também que, segundo Gonçalves e Raposo, o seguinte teste auxilia na distinção entre o complemento indireto e o oblíquo introduzido pela preposição a (no âmbito do português-padrão)3:

(i) o complemento indireto não pode ser realizado pela sequência «a + pronome pessoal tónico»: «*Entregou o livro a ele»;

(ii) o complemento oblíquo admite a substituição por «a + pronome pessoal tónico»: «Recorreu aos amigos / Recorreu a eles»; «Obrigou o João a uma confissão / Obrigou o João a isso»4.

Se testarmos a frase em análise, verificamos que é possível substituir o constituinte «a natureza» por «a + pronome pessoal tónico»:

(5) «O sujeito lírico dirigiu-se a ela

Este comportamento sintático, associado ao facto de o verbo, na sua forma pronominal, reger a preposição a, indicam que o constituinte «a natureza» desempenha a função de complemento oblíquo.

Disponha sempre!

 

? marca a dúvida relativamente a aceitabilidade da frase.

1. cf. Raposo e Miguel, in Raposo et al., Gramática do Português. Fundação Calouste Gulbenkian, p.717 e 1085.

2. Tal como previsto em Busse, Dicionário sintáctico de verbos portugueses. Almedina, p. 176-177.

3. cf. Raposo et al., Ibidem, p. 1171

4. cf. Ibidem, p. 1172; exemplos adaptados. Ver também a resposta «Analise sintática de «Ceder ao sentimento» vs. «prestar atenção à leitura»»

Carla Marques
Classe de Palavras: verbo
Áreas Linguísticas: Sintaxe Campos Linguísticos: Funções sintáticas