Analise sintática de «Ceder ao sentimento» vs. «prestar atenção à leitura» - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Analise sintática de «Ceder ao sentimento»
vs. «prestar atenção à leitura»

Qual a diferença entre o complemento oblíquo a que o verbo ceder obriga e a expressão «prestei atenção à leitura», que já foi avaliada numa prova externa, em que «leitura» surgia como complemento indireto?

Marina Santos Professora Cascais, Portugal 183

Prestar é um verbo transitivo direto e indireto, ou seja, pede como argumentos um complemento direto e um complemento indireto, como fica claro nas construções seguintes:

(1) «Ele presta ajuda a alguém»

(2) «Ele presta homenagem a alguém»

(3) «Ele presta culto aos deuses» (exemplos adaptados de Dicionário Houaiss)

Nestas construções, é possível substituir o complemento indireto pelo pronome clítico lhe, como se observa nas frases:

(1a) «Ele presta-lhe ajuda.»

(2a) «Ele presta-lhe homenagem.»

(3a) «Ele presta-lhes culto.»

Estes casos são semelhantes ao que é apresentado, no qual o constituinte «à leitura» também é substituível por lhe, o que indica tratar-se de um complemento indireto:

(4) «Prestei atenção à leitura. / Prestei-lhe atenção»

Já no caso do verbo ceder, em construções como «ceder ao sentimento» (significando “dar-se por vencido; não resistir” (Dicionário Houaiss)), a substituição do argumento do verbo pelo pronome lhe é de aceitabilidade questionável (com as reservas referidas aqui). A não ser aceitável esta substituição, estamos perante um argumento com a função sintática de complemento oblíquo (como acontece em construções similares, tais como «Ir a Lisboa»).

Note-se que, como afirmam Gonçalves e Raposo, «nem sempre um complemento introduzido pela preposição a é indireto; a possibilidade de esse complemento ser substituído por um pronome dativo é uma condição necessária para esse estatuto» (Gramática do Português, p. 1171). Estes autores propõem o seguinte teste para distinguir o complemento indireto de um oblíquo introduzido pela preposição (no âmbito do português-padrão): 

(i) o complemento direto não pode ser realizado pela sequência «a + pronome pessoal tónico»: «*Entregou o livro a ele»;

(ii) o complemento oblíquo admite a substituição por «a + pronome pessoal tónico»: «Recorreu aos amigos / Recorreu a eles»; «Obrigou o João a uma confissão / Obrigou o João a isso». (cf. Gramática do Português, p. 1172; exemplos adaptados).

Situação semelhante parece ocorrer em «ceder ao sentimento / ceder a ele/isso».

Acrescente-se, não obstante, que o caso do verbo ceder é problemático e se presta a interpretações dúbias, pelo que será um exemplo que, no ensino básico e secundário, não deverá ser problematizado, pelas dificuldades que oferece.  

*Assinala a agramaticalidade da construção.

Carla Marques