DÚVIDAS

Amar, amante, amador

Qual seria a diferença entre usar um verbo, como amar, e um adjetivo que indica a ação dele, como amante?

Além disso, quão diferentes são os adjetivos desse tipo, quando há mais de um para o mesmo verbo? Por exemplo: existe, além de amante, o adjetivo amador; seriam sinônimos ou ocorre uma sutil diferença?

Com efeito, as três frases seguintes apresentam o mesmo sentido?

«O menino, que ama o futebol, não perde um jogo da seleção.»

«O menino, amador do futebol, não perde um jogo da seleção.»

«O menino, amante do futebol, não perde um jogo da seleção.»

Para evitar repetir excessivamente o pronome que (pois faço redações escolares, em que essa repetição é penalizada), tenho feito um uso mais recorrente dos adjetivos que indicam uma ação verbal, trocando esse pronome por eles. Por isso, esta questão tem como finalidade última verificar se há uma diferença semântica que implique a troca do pronome que por um adjetivo não ser uma boa forma de evitar a sua repetição.

Por exemplo: para evitar repetir o pronome que, escreveria a frase anterior como:

«Por isso, esta questão tem como finalidade última verificar se há uma diferença semântica implicadora de a troca do pronome que por um adjetivo não ser uma boa forma de evitar a sua repetição.»

Tais são as dúvidas.

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Resposta

De um modo geral, adjetivos deverbais conservam grande parte do sentido original do verbo. Eventuais mudanças são regidas pelas transformações do afixo designado para a derivação, como os sufixos comprar > comprá-vel («que pode ser comprado»), cantar > canta-nte («que canta») etc.

O problema particular com o verbo amar é que ambas as formas amante e amador são cristalizadas na língua, ou seja, consideramos que esses são casos excepcionais à derivação sufixal. Por exemplo, seguindo estritamente os sentidos dos sufixos -nte e -dor, amante e amador deveriam representar «a pessoa que ama». Porém, amador significa «inexperiente, fazer por prazer (e não por profissão)», enquanto amante é a pessoa com quem se mantêm relações extraconjugais. Isso é o que algumas teorias chamam de lexicalização.

Quanto à ideia de substituir orações relativas por adjetivos, não deixa de ser viável, mas este autor recomenda o estudo das inúmeras formas de evitar repetição vocabular. No exemplo trazido pelo consulente, este autor acredita que a substituição de «que implique» por implicadora é relativamente forçosa e artificial, porque implicador não é um adjetivo de uso corrente.

Por um lado, há estruturas em que o pronome que não pode ser evitado; nesses casos, não há o que fazer. Há outras estruturas, porém, que permitem outras formas de construções, ou até a simples substituição do pronome que por outro. No caso abaixo, a oração relativa é reduzida, evitando o uso do que:

(1) O técnico comunicou um problema [que será resolvido até a semana que vem].

(1') O técnico comunicou um problema [a ser resolvido até a semana que vem].

No caso abaixo, a substituição do pronome em si é lícita, o que evita o uso do relativo universal que:

(2) O aluno [de que falo todo dia] é brilhante!

(2') O aluno [de quem falo todo dia] é brilhante!

Então, a substituição da oração relativa por um sintagma adjetival é válida e possível em diversos contextos, mas, como se pôde perceber, não soluciona todos os casos. Às vezes, a transformação de verbo em adjetivo leva a uma forma cristalizada, com sentido muito distante do pretendido. Nesse caso, deve-se recorrer a outra estratégia de substituição ou, em último caso, deixar a estrutura como está.

É claro que se deve, sempre que possível, evitar a repetição vocabular, mas isso não significa que todas as estruturas admitem substituições simples ou diretas. Em alguns casos, a substituição pode representar uma mudança total de estrutura, com outras palavras. Em alguns casos, a estrutura com o relativo que já estará perfeita. Deve-se considerar cada caso em seu contexto particular de uso e de interação com outros elementos da estrutura.

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