Sabendo que o particípio passado (ou particípio verbal) e o adjetivo partilham «um número importante de propriedades morfológicas, sintáticas e semânticas», é útil percebermos que um e outro podem ocorrer com função atributiva e em orações copulativas, em particular com os verbos ficar e estar: é com estes verbos que os particípios assumem «propriedades semânticas e sintáticas que os tornam gramaticalmente semelhantes aos adjetivos. Em certos casos, esbate-se mesmo consideravelmente a distinção entre as duas classes» (Veloso e Raposo, 2013)1.
Estes dois autores deixam claro que:
- Os particípios se aproximam mais dos adjetivos em orações com os verbos ficar e estar (função predicativa), sobretudo do ponto de vista semântico e lexical. Por exemplo:
(1) A cidade ficou/está destruída. (cf. [Alguém/Alguma coisa] destruiu a cidade)
(2) A cidade de Lisboa ficou/está cercada (pelo exército castelhano). (cf. o exército castelhano cercou a cidade de Lisboa)
(3) O conselho de turma ainda ficou/está reunido. (cf. o conselho de turma reuniu-se).
- Apesar de não existir uma «separação nítida e estanque entre a classe dos adjetivos e a dos particípios», a verdade é que os particípios, «dependendo do contexto em que ocorrem e também do seu sentido mais ou menos previsível a partir do verbo com que se relacionam [por exemplo, ser e estar], podem ocupar um determinado número de posições numa escala gradativa na qual um dos extremos corresponde a formas inteiramente verbais e o outro a formas cujo sentido se afasta do sentido do verbo correspondente, e das quais se pode dizer que se recategorizaram completamente em adjetivos»:
O particípio passado é mais verbo e menos adjetivo, quando:
- integra um tempo composto
(4) O diretor tinha autorizado a reunião.
- integra uma forma verbal flexionada na voz passiva
(5) A reunião foi autorizada pelo diretor.
O particípio passado é menos verbo e mais adjetivo, quando:
- integra a denominada oração copulativa, com os verbos ficar e estar
(6) A reunião ficou/está autorizada.
- assume uma função atributiva (recategorização lexical)
(7) Uma medida autorizada.
Desta forma, poder-se-á concluir que o particípio passado mantém o «estatuto plenamente verbal» nos tempos compostos; nas orações em que integra a voz passiva, o particípio passado é sintática e semanticamente verbal, mas «adquire propriedades morfológicas adjetivais, concordando em género e número com o nome que modificam ou sobre o qual predicam»; nas orações copulativas, em particular com os verbos de cópula ficar e estar, «os particípios não só ocorrem nos mesmos contextos em que ocorrem adjetivos, mas adquirem também propriedades aspetuais que os aproximam destes; no entanto, na sua maioria, mantêm um sentido lexical que se relaciona com o sentido do verbo correspondente – ou seja, não estão ainda totalmente recategorizados em adjetivos».
No mesmo capítulo da Gramática do Português (Calouste Gulbenkian), Veloso e Raposo referem que os únicos particípios que «recategorizam completamente em adjetivos, ficando mais ténue (ou, por vezes, desaparecendo) a relação de sentido entre as duas formas», são aqueles que «não podem ser usados nos tempos compostos nem, quando correspondem a verbos transitivos, em orações passivas» (ibidem, pp. 1478 e 1479).
No caso concreto de ocupado e de enviados, dois particípios passados formados através do processo dito «regular — que consiste na junção de sufixos ao tema verbal (sufixo flexional de tempo, modo e aspeto -d-, seguido do índice temático -o ou -a, em função da forma masculina ou feminina) —, o primeiro particípio passado (ocupado), apesar de ser menos verbo e mais adjetivo, pelo facto de integrar uma oração copulativa, com o verbo estar, mantém «um sentido lexical que se relaciona com o sentido do verbo correspondente» (ocupar), ou seja, não está totalmente recategorizado em adjetivo e, neste particular caso, os autores classificam este tipo de adjetivos como «particípios adjetivais»; o segundo particípio (enviados) integra uma frase passiva [com o complemento agente da passiva omisso], o que significa que é mais verbo e menos adjetivo, ou seja, é sintática e semanticamente um particípio verbal, apesar de serem evidentes as suas propriedades morfológicas adjetivais, concordando em género e número com o nome que modificam (testes).
1 Vide Rita Veloso e Eduardo Buzaglo Paiva Raposo (2013). Adjetivo e Sintagma Adjetival. In Raposo, Eduardo Buzaglo Paiva; Nascimento, Maria Fernanda Bacelar do; Mota, Maria Antónia Coelho da; Segura, Luísa; Mendes, Amália. Gramática do Português (Volume II, Capítulo 31, pp. 1479-1489). Fundação Calouste Gulbenkian.