DÚVIDAS

Ainda o valor de «uma vez que»
Além do valor causal, que parece o valor mais comum, (1) não é verdade que esta conjunção pode ter o valor condicional ou ainda o valor temporal? (2) Será que o valor condicional é ultrapassado na língua atual? Eis alguns exemplos: Condicional: 1. Uma vez que a Suíça fizesse parte da União Européia, teria de aceitar os caminhões. 2. Outros possíveis efeitos para a saúde estão envoltos em controvérsia. Há ligeiros indícios de uma ligação com o cancro (a pílula pode proteger as mulheres de algumas formas de cancro). Uma vez que se deixe de a tomar, há um aumento da probabilidade de conceber gémeos. [O Corpus de Português de Davies e Ferreira] 3. Com um mês de trabalho nas minas, os negros estavam aptos a dar bom rendimento, uma vez que o capataz os soubesse puxar. [Castro Soromenho em O Corpus de Português de Davies e Ferreira] Temporal: 1. Uma vez que tu tenhas ido ao Brasil, entenderás a mentalidade do povo. 2. Uma vez que tu tiveres ido ao Brasil, entenderás a mentalidade do povo. 3. Ambos os lados concordam que, uma vez que você tiver todos esses bits, deverá ainda codificá-los por algoritmos para um trabalho de valor. [http://www.cinemanasala.com/dd_dts.htm]
Ainda o futuro do pretérito vs. condicional
Consultando as respostas anteriores, verifiquei a resposta 7647 em que o consultor José Neves Henriques faz uma explanação sobre condicional e pretérito e as diferenças existentes em Portugal e no Brasil. Atualmente, compulsando o volume 3 da série Soltando a Língua, do professor Sérgio Nogueira, verifiquei que a de NGB (Nomenclatura Gramatical Brasileira), em 1959, tornou o futuro do pretérito a denominação oficial para o antigo "condicional" já em desuso e traz alguns exemplos: 1) Ele dizia que não viria (dizer = pretérito imperfeito; vir = futuro do pretérito); 2) Ele disse que não viria, possibilidade usada pela imprensa quando não se sabe ao certo se ele virá... Há até um exemplo para se evitar ambigüidades, principalmente na imprensa: «Segundo o médico, a causa da morte seria traumatismo craniano.» Nesse caso, não sabemos ao certo se o médico afirmou que a causa morte é traumatismo craniano, mas ele (= o jornalista) não tem certeza disso, ou se nem o médico tem certeza da causa da morte. Havendo realmente a certeza, dizemos: «Segundo o médico, a causa da morte é (ou foi) traumatismo craniano.» Com base na NGB citada, como é correto escrever?: 1) Gostava de saber como será/seria melhor pontuar o texto;2) Gostaria de saber como será/seria melhor pontuar o texto;3) Gostaria de saber se há/haveria melhor forma de pontuar o texto. Na hipótese de não ter a certeza de ter as perguntas acima respondidas, diria: «Ficaria agradecido se me respondesse» e, caso contrário, tendo a (ou quase) certeza de ter as respostas às perguntas: «Ficarei agradecido a quem me responder.» Estou certo em pensar assim?
O indicativo em lugar do conjuntivo
Sempre disse e ouvi duvidar na afirmativa com subjuntivo, mas vejo numa conceituada revista hebdomadária brasileira: «Duvido que o Brasil virá a ser um grande exportador de petróleo. Ninguém sabe qual é o custo de produzir sob a camada de sal.» Esta frase foi proferida por Albert Fishlow, economista americano, que certamente a pronunciou em inglês, e traduzida por alguém depois, o que descarta os lapsos que muitas vezes se cometem na linguagem falada. Por isso mesmo, pergunto-lhes: é lícito usar o indicativo aí? Talvez o tradutor tenha optado por esse modo por haver referência futura (vir a ser), já que o futuro do subjuntivo, existente em português, seria agramatical («duvido que o Brasil *vier a ser»). Usando o subjuntivo, teria de dizer-se algo como «Duvido que o Brasil passe a ser/seja algum dia/se torne ...». Saudações brasileiras.
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