DÚVIDAS

Barco/navegação «à vela» ou «a vela»?
Agradeço que me digam se estou ou não enganada relativamente ao seguinte. Creio que dizemos e escrevemos «à vela» neste contexto, subentendendo uma contracção (que não existe) entre «a» preposição e «a» artigo definido. Se esta expressão estivesse correcta, deveríamos também dizer «barco ao vapor», «ao motor», «aos remos»... Não será a expressão correcta «barco a vela»? Resultará a expressão «à vela» de uma semelhança tão-somente fonética com o francês, em que o «à» de «bateau à voile» é apenas preposição? Deverei corrigir «à vela» nos livros cujos textos revejo?
«Para a frente» e «para cima»
Estou em dúvida a respeito de algo que, antes, para mim, parecia muito óbvio, mas que agora está me causando algumas dores de cabeça. Por acaso as expressões corretas seriam «[verbo] para frente» e «[verbo] para cima» ou «[verbo] para a frente» e «[verbo] para a cima», com a presença de artigo? Frente e cima são substantivos femininos, porém nunca vi escrito algo como «para a cima de (...)», por exemplo, e acho essa forma um pouco estranha. E todas essas dúvidas começaram com um dilema na hora de escrever entre «dar um passo a frente» ou «dar um passo à frente», uma vez que para substitui o a, e para a substitui à. Obrigado pela atenção.
A chanceler, a chancelera ou a chancelerina?
Segundo li algures, a Sociedade para a Língua Alemã (desconheço como será a palavra em alemão) propôs o feminino “chancelerina” para a nova primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel. A questão que levanto é se, de facto, em português, o feminino de chanceler é mesmo chancelerina ou, antes, “a” chanceler. Recordo que, entre nós, a embaixatriz não é propriamente o mesmo que a embaixadora, assim como há mulheres (caso das já falecidas Natália Correia e Sophia de Melo Breyner) defendendo que a mulher poeta se deve intitular “a” poeta e não a poetisa. Muito obrigado.
Sobre as funções sintáticas do advérbio não
Desejava saber se o advérbio de negação desempenha a função sintática de modificador do grupo verbal. Por exemplo: «Eu não o tenho visto ultimamente.» Análise sintática: «Eu» – sujeito simples; «não o tenho visto ultimamente» - predicado; «o» – complemento direto; «ultimamente» – modificador do grupo verbal (O advérbio não não desempenha nenhuma função sintática.) ou «(…) não» – modificador do grupo verbal; «o» – complemento direto; «ultimamente» – modificador do grupo verbal A minha dúvida advém do seguinte: 1. Os modificadores do grupo verbal dão-nos informações acessórias sobre a realização da ação, isto é, indicam-nos as circunstâncias da realização da ação (como os antigos complementos circunstanciais); 2. Nunca vi na antiga terminologia gramatical um complemento circunstancial de negação; 3. Na verdade, com um não não estamos a modificar a ação/dar informação sobre as circunstâncias da realização da ação – estamos apenas a negar essa ação (frase afirmativa vs. frase negativa). Será que “negar a ação” é “modificá-la”? Se se considerar que estamos a “modificá-la”, não existe aqui uma certa confusão conceptual? Consultei o Dicionário Terminológico (DT), que nos apresenta o seguinte, a propósito do advérbio de negação: «Advérbio de negação Advérbio cujo significado contribui para reverter o valor de verdade de uma frase afirmativa ou para negar um constituinte. Este advérbio pode ser um modificador do grupo verbal ou de um constituinte do grupo verbal.» Negação frásica: (i) O João [não] comprou flores à Ana. [Análise sintática desta frase: «O João» – sujeito simples; «não comprou flores à Ana» – predicado; «não» – modificador do grupo verbal (???); «flores» – complemento direto; à Ana – complemento indireto] Negação de constituinte: (iii) O João [comprou à Ana ontem [não flores]], mas livros. (modifica o grupo nominal complemento direto) [Análise sintática desta frase: «O João» – sujeito simples; «comprou à Ana ontem não flores, mas livros» – predicado; «à Ana» – complemento indireto; «ontem» – modificador do grupo verbal; «não flores, mas livros» – complemento direto] O não fica de fora. Ficará também de fora na frase de cima (i). Parece-me haver nesta entrada do DT um conceito diferente de “modificador do grupo verbal”… Obrigada pela atenção concedida.
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