Maria Eugénia Alves - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Maria Eugénia Alves
Maria Eugénia Alves
3K

Professora portuguesa, licenciada em Filologia Românica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com tese de mestrado sobre Eugénio de Andrade, na Universidade de Toulouse; classificadora das provas de exame nacional de Português, no Ensino Secundário. Coordenadora executiva do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacada para o efeito pelo Ministério da Educação português, desde setembro de 2017.

 
Textos publicados pela autora

   Na Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra, pp. 691-699, 2ª ed., faz-se a distinção entre as variedades de rima.

   Quando a correspondência dos sons é completa, a rima diz-se soante ou consoante ou, simplesmente, consonância: -ora (amoranora). A partir da vogal tónica igualam-se todos os fonemas, vogais e consoantes.

   Se há conformidade apenas da vogal tónica, ou das vogais a partir da tónica, a rima diz-se toante, assonante ou assonância: i - o (amigo, filho). Apresenta uma identidade de vogais a partir da vogal tónica.

   As palavras da consulente, céu e desapareceu, enquadram-se no exemplo de Cunha e Cintra de rima toante, em que nem sempre há identidade absoluta entre os sons dispostos em rima. É um dos casos de rima imperfeita, consagrados pelo uso, da vogal acentuada e aberta com fechada: 

«Quem disse à estrela o caminho

Que ela há-de seguir no céu?

A fabricar o seu ninho

Como é que a ave aprendeu

(

No Dicionário Aurélio, encontramos a definição de neófito: «(do grego neóphytos, pelo latim neophytu) Na Igreja primitiva, indivíduo recentemente convertido o cristianismo; aquele que recebeu ou acabou de receber o batismo; noviço; indivíduo admitido há pouco em uma corporação; principiante, novato: É neófito em filologia»

É nesse sentido que Fernando Pessoa acaba o poema Iniciação, em que alude ao cerimonial do iniciado no ritual esotérico do autoconhecimento, com o verso «Neófito, não há morte.»

Dicionário Houaiss ainda acrescenta: «Aquele que está num local pela primeira vez O banho dos neófitos ao passarem de navio pela linha do Equador.; pessoa recém-admitida numa empresa. [do latim neophytus, -i recém-convertido; do grego neóphytos, on, plantado há pouco, implantado recentemente (na alma)]. 

Quanto a neófilo (neo- + -filo), o sentido é bastante diferente e o mesmo Dicionário Houaiss define «Que ou aquele que denota neofilia¹; admirador ou adepto do novo.» 

¹ Amor à novidade, às teorias revolucionárias e concepções culturais originais, aos modos de expressão inovadores.

Não cremos que a vírgula instale uma rutura na junção destas vogais átonas, uma vez que, ao pronunciá-las, as juntamos numa só sílaba e esse é o fator que determina a divisão da métrica. Fundem-se conforme a pronúncia corrente (o que constitui a sinalefa)É a fonética que define o critério da contagem das sílabas métricas, a que se chama escansão do verso.

O verso tem, assim, 6 sílabas métricas «Ó /que / lin /do, os/ na /vi / os». 

Para haver a ocorrência de hiato, tinham de estar presentes duas vogais tónicas lado a lado, não podendo haver contração das duas, ou seja, mantêm-se em sílabas independentes, ainda que uma das sílabas tónicas enfraqueça. O hiato diminui a fluidez do verso, razão que leva os autores a evitá-lo (Ex.: di/rá / ao ).

Exemplificamos com um soneto de Camões, de versos decassílabos, o que dissemos acima. Veja-se o 1º verso, com vírgula  a separar as  vogais átonas a e a e que as elide numa sílaba métrica: De/ quan/ tas/ gra/ ças/ ti/ nha, a/ Na/ tu/ re/ za

As duas sílabas gramaticais /nha, a/ podem ser pronunciadas numa única emissão de som e a vírgula não o impede, nem as separa como nas sílabas gramaticais.

De quantas graças tinha, a Natureza

Há palavras que ganham valores semânticos que contrariam, por vezes, a sua vocação primária. É o caso do advérbio que, na frase citada pela consulente «sei lá!», adquire um valor negativo, distante da sua primeira aceção, isto é, marcador de lugar.

João Costa, no seu estudo sobre O Advérbio em Português Europeu, p. 75, realça o valor negativo do advérbio lá:

«O advérbio pode denotar polaridade negativa em frases exclamativas como:

a. Eu lá tenho vontade de ir trabalhar! (= Eu não tenho vontade de ir trabalhar)

b. Ele lá gosta disso! (= Ele não gosta disso)

c. O Pedro lá pensa nessas coisas! (= O Pedro não pensa nessas coisas)» 

No entanto, este advérbio não substitui na íntegra o advérbio de polaridade não, pois

 – não se pode usá-lo para respostas a interrogativas totais: «Queres pão? Não / *lá¹»

 – ou «pode co-ocorrer com o advérbio de polaridade não, transformando uma frase negativa em positiva: Eu lá não te deixava entrar! (= Eu deixo-te entrar)»

Em conclusão, «Sei lá!» enquadra-se neste âmbito do valor negativo de , significando, como diz a consulente, «Não sei».

¹

Para escrever manualmente o que estaria em itálico num texto digitado, pode substituir o itálico pelo uso de aspas, dado que o objetivo é o mesmo: destacar algo, como diz. O texto pode ficar sobrecarregado, uma vez que elas também se usam para outras funções, para citar, para dar exemplos e ainda para indicar o sentido de algumas palavras.

Vamos responder ao que solicita, embora com risco, pois não temos nas frases acesso ao itálico ou negrito, que supomos existir no original:

1) São incompatíveis com operadores aspetuais como «parar (de)» ou «acabar (de)».

2) A situação descrita pela oração «o João abriu a porta» precede necessariamente «a entrada da Maria».

3) Se for o tipo a ser avaliado, usa-se "ser" (cf. Bacalhau à Brás é muito bom).

4) Neste aspeto, «ficar» é praticamente sinónimo de «permanecer». 

No caso das referências bibliográficas, o uso é sublinhar os títulos de livros, revistas, e utilizar as aspas para referir títulos de poemas ou de capítulos, artigos de revistas...

Para rasurar partes de um documento (palavras ou frases), na escrita manual, a norma é fazer um traço horizontal por cima do que quer eliminar. No entanto, se o documento manuscrito é para entregar a alguém, deve ser passado a limpo,  se for possível, depois de todas as correções feitas.