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Maria Eugénia Alves
Maria Eugénia Alves
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Professora portuguesa, licenciada em Filologia Românica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com tese de mestrado sobre Eugénio de Andrade, na Universidade de Toulouse; classificadora das provas de exame nacional de Português, no Ensino Secundário. Coordenadora executiva do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacada para o efeito pelo Ministério da Educação português, desde setembro de 2017.

 
Textos publicados pela autora
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«(…) Só penso como estas expressões serão entendidas por uma boa fatia da sociedade portuguesa, envelhecida, analfabeta, muitas vezes, aldeãos esquecidos numa província cada vez mais longínqua das grandes cidades litorais onde a “civilização” acontece com halloweens, blackFridays/weeks, marginalizando, criando fossos, insistindo num progresso que ignora continuamente a sua língua materna e promove um país a duas velocidades. (…)»

Em Textos Portugueses Medievais, de Correia de Oliveira e Saavedra Machado, adota-se o esquema rimático de letra diferente grafada com maiúscula para assinalar o refrão, isto é, aa BBB:

 

«Madre velida, meu amigo vi;
non lhi falei e con el me perdi,
     e moir' agora, querendo-lhi ben;
     non lhi falei, ca o tiv' en desden;
     moiro eu, madre, querendo-lhi ben.

Se lh' eu fiz torto, lazerar-mh-o-ei
con gran dereito, ca lhi non falei;
     e moir' agora, querendo-lhi ben;
     non lhi falei, ca o tiv' en desden;
     moiro eu, madre, querendo-lhi ben.

Madre velida, ide-lhi dizer
que faça ben e me venha veer;
     e moir' agora, querendo-lhi ben;
     non lhi falei, ca o tiv'en desden;
     moiro eu, madre, querendo-lhi ben.

                                                                                   Ayras Carpancho, CV 259, CBN 621

Dísticos emparelhados de decassílabos agudos, com refrão de três versos, também 

O cansaço de Álvaro de Campos é um tema recorrente da sua poesia numa fase dita «intimista», em que expõe de modo perturbador, muitas vezes dilacerante, tudo o que lhe falhou na vida.

Este é um dos poemas que reitera a sua condição de intranquilidade, inquietação, frustração, desilusão, tédio. O cansaço é assumido como coisa em si mesma, alimenta-se do próprio cansaço, ecoa no labirinto do "eu", gritando-lhe o desapontamento que é a sua vida, ao contrário dos "outros" que encontram um motivo, mesmo reles, para viver. Temos, pois, um sujeito poético em contramão, seguindo opostamente ao resto do mundo, um "eu" marginal que  nunca encontrará lugar no grupo.

Vejamos a estrofe em análise:

A subtileza das sensações inúteis,

As paixões violentas por coisa nenhuma,

Os amores intensos por o suposto em alguém,

Essas coisas todas —

Essas e o que falta nelas eternamente —;

Tudo isso faz um cansaço,

Este cansaço,

Cansaço.

 

Campos lista «essas coisas todas» que os "outros" ambicionam - as sensações, as paixões, os amores - e mostra que todas elas falham em signific...

      Esta questão não tem um tratamento fácil, pela ambiguidade dos constituintes frásicos. No entanto, sustentamos que, nas frases citadas pelo consulente, o que, qual, quem são sujeitos. Como passamos a demonstrar:

  1. Na Moderna Gramática Portuguesa de Evanildo Bechara vem a seguinte explicação: «(...) A segunda particularidade é a possibilidade de comutação do predicativo pelo pronome invariável o, qualquer que seja o gênero e o número do núcleo do predicativo que substitui, quando o verbo é ser, estar, ficarparecer: O trabalho é proveitoso. → O trabalho o é. As alegrias eram passageiras. → As alegrias o eram. Janete é minha irmã → Janete o é.» (p. 351)

Assim, teríamos: 

O que são vírus? → O que o são? 

Qual é o problema? →  Qual o é?

Quem é a vítima? → Quem o é?

     Mais à frente, na p. 452, no âmbito da concordância verbal, escreve o gramático brasileiro: «(...) o  verbo ser se acomoda à flexão do predicativo, especialmente quando se acha no plural. São os seguintes os casos em que se dá esta concordância: (...) b) quando o sujeito é constituído pelos pronomes interrogativos...

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Os festejos em Portugal do Dia das Bruxas – o Halloween em inglês –, uma celebração até há poucos anos circunscrita a alguns países de língua anglo-saxónica (especialmente nos EUA), em 31 de outubro, véspera do feriado religioso do Dia de Todos os Santos, de forte tradição católica, e as suas reações extremadas entre “tradicionalistas” e “modernistas”.