Maria Eugénia Alves - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Maria Eugénia Alves
Maria Eugénia Alves
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Professora portuguesa, licenciada em Filologia Românica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com tese de mestrado sobre Eugénio de Andrade, na Universidade de Toulouse; classificadora das provas de exame nacional de Português, no Ensino Secundário. Coordenadora executiva do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacada para o efeito pelo Ministério da Educação português, desde setembro de 2017.

 
Textos publicados pela autora

«Chamavam gulosa à Maria»: o verbo chamar é transitivo indireto, estabelecendo o complemento indireto em à Maria. A este, está-lhe inerente o adjetivo gulosa, que é um caso (raro) de predicativo do complemento/objeto indireto, e que acontece apenas com o verbo chamar.

Celso Cunha e Lindley Cintra, na Nova Gramática do Português Contemporâneo, p. 147, 2.ª edição, fazem notar que «somente com o verbo chamar pode ocorrer o predicativo do objeto indireto:

«A gente só ouvia o Pancário chamar-lhe ladrão e mentiroso(Castro Soromenho, Viragem

«Chamam-lhe fascista por toda a parte. (Ciro dos Anjos, Montanha

No Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa (edição de 2001) a expressão «conversa fiada» é atestada com dois sentidos: 1. «Diálogo sem assunto previamente definido ou sem objetivo específico em vista; 2. Discurso que pretende disfarçar a ignorância de quem o produz, ou com que se pretende enganar quem o ouve.»

 

A ideia do logro, do discurso ardiloso, também se regista no Dicionário Houaiss: «que é enganoso, que o objetivo é enganar outrem.»

Quanto ao verbo fiar:

1. Por um lado, tem os significados de «ser o fiador de, abonar, acreditar, confiar: No filho, fiava as suas esperanças.»

  No Dicionário Aurélio, vemos que o verbo provém do latim fidare, por fidere: «Abonar, afiançar, esperar, acreditar, confiar

                Se fiamos num bem, que a mente cria,

                  Que outro remédio há aí senão ser triste?    

                                            Antero de Quental, Sonetos»

 ...

Nada, nesta frase, é um pronome indefinido e ocupa a posição de complemento direto, selecionado pelo verbo transitivo direto comer. Se substituirmos “nada” por um grupo nominal, o teste da substituição pelo pronome pessoal átono funciona:

«Não comeste a maçã.» –« Não a comeste.»

De igual modo, com um verbo transitivo direto como ver, temos exatamente a mesma situação quando o complemento direto é um pronome indefinido:

«Não vejo ninguém.» – *«Não o vejo.»

«Não vejo o João.» – «Não o vejo.»

Podemos, portanto, concluir que, embora sendo complemento direto, o pronome indefinido não pode ser substituído pelo pronome pessoal átono. 

Para entender a expressão, é preciso contextualizá-la e ir um pouco mais longe no tempo.

De facto, ela prende-se com um fenómeno da cultura popular brasileira, o célebre Jogo do Bicho. Segundo a Wikipédia, «O jogo do bicho é uma bolsa ilegal de apostas em números que representam animais. Foi criado em 1892 pelo barão João Batista Viana Drummond, fundador do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro, em Vila Isabel, Rio de Janeiro.»

Acontece que a zebra é um animal que não existe no jogo. Assim, usar a expressão vai dar zebra! significa a impossibilidade de esse facto vir a ocorrer. Foi usada pela primeira vez pelo treinador de futebol Gentil Cardoso, num jogo em que o seu clube, o então poderoso Vasco da Gama, estava em clara vantagem em relação ao adversário, clube mais fraco. No entanto, antes do início do jogo, o técnico profetizou o que parecia impossível, usando a expressão «vai dar zebra!», numa alusiva referência ao jogo do bicho.

A metáfora da expressão evoca a impossibilidade, a alta improbabilidade da ocorrência, uma vez que este animal não faz parte do jogo. Mas o clube em desvantagem venceu o Vasco e, por isso, «deu zebra!».

A partir daí, a expressão tornou-se popular e significa que o inesperado pode acontecer.

Em conformidade com a história da expressão, aparece posteriormente a representação da <...

A interrogação do consulente tem toda a razão de existir, uma vez que a palavra «aves» está, neste contexto, deslocada da sua classe gramatical. Não encontrará essa resposta nos dicionários, pois a palavra insere-se gramaticalmente apenas numa classe de palavras: o nome.

O que acontece nesta passagem é a migração da palavra para a classe dos adjetivos, adquirindo aqui esse valor, que só lhe é conferido pela liberdade poética, potenciadora de sentidos vários, mas eventualmente longínquos da norma gramatical.

«[…] às horas aves […]» é uma metáfora que poderá entender-se como as horas libertadoras, tendo em conta que o termo “aves” abarca as ideias da liberdade (até de libertação), da insubmissão, do sonho, da plenitude.