Carlos Rocha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carlos Rocha
Carlos Rocha
1M

Licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Linguística pela mesma faculdade e doutor em Linguística, na especialidade de Linguística Histórica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Professor do ensino secundário, coordenador executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacado para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pelo autor

Pergunta:

Em inglês, há a palavra trapper, e, em espanhol, há a palavra tramposo (ambas seriam, em português, "armadilheiro", por de certo).

Armadilha em inglês é trap, e, em espanhol, é trampa. Qual será então o motivo de não haver a palavra "armadilheiro" em português? Embora eu já a tenha visto em certas traduções de histórias em quadrinhos, animações, videogames e jogos de cartas colecionáveis... mas, oficialmente, não existe em nosso idioma!

Resposta:

Os dados apresentados sobre o inglês e o espanhol estão longe de constituírem uma regra das línguas vizinhas. Os idiomas são também produtos histórico-sociais, e, portanto, raramente é útil avaliar a capacidade expressiva de um a partir dos outros sem ter em conta um mínimo de contextualização cultural. Por outro lado, é preciso considerar que as línguas também refletem muito o que são necessidades de expressão coletivas.

O português poderia ter "armadilheiro", que potencialmente existe, mas não se usa. Em seu lugar tem trapaceiro, de trapaça, «armadilha moral, desonestidade», e, para quem faz armadilhas para caçar animais, armador (cf. Dicionário Houaiss1). Por outras palavras, em português, o termo que geralmente denota a pessoa que cria armadilhas psicológicas morais não deriva do nome armadilha, mas, sim, de outras, como trapaça.

A distribuição desta área de significação por unidades lexicais com diferente etimologia e derivação não constitui uma anomalia. Para mais, verifica-se que, mesmo em espanhol, a noção de «aquele faz armadilhas (físicas ou morais)» também se encontra marcada separadamente, pelo menos, por duas palavras que têm a mesma base de derivação mas são diferentemente sufixadas: por um lado, regista-se trampero («o que faz armadilhas») e, por outro, como adjetivo, tramposo («embusteiro, aldrabão, batoteiro») – cf. dicionário da Real Academia Espanhola.

Assinale-se, em todo o caso, que o inglês trapper não é o mesmo que tramposo, cujo significado anda próximo de trapaceiro, batoteiro ou aldrabão. Mais perto do sentido do t...

Pergunta:

Na região balcânica da Europa oriental, há um país cujo nome é Bósnia e Herzegovina. Bósnia” e Herzegovina são, cada uma delas, regiões integrantes diferentes desse país.

A dúvida é a seguinte: como me referir a ele? Deverei dizer «visitei a Bósnia e a Herzegovina»? Ou então «visitei a Bósnia e Herzegovina»? Ou ainda «visitei Bósnia e Herzegovina»? O mais comum parece ser que se use a segunda forma, justamente a que me parece menos preferível, já que nela se usa um artigo definido no singular para um nome que, na verdade, tem duas partes.

Vale lembrar, ademais, que em Portugal parece existir a forma hifenizada: Bósnia-Herzegovina. Nesse caso, o mais correto parece ser que não se use artigo algum, ou seja, que se diga «visitei Bósnia e Herzegovina».

Que é que me dizem?

Resposta:

Para começar, observe-se que o nome próprio em questão se faz acompanhar de artigo definido: «a Bósnia e Herzegovina», ou «a Bósnia-Herzegovina»1. Também as duas principais regiões deste país balcânico têm sempre associado o artigo definido: «Conheço a Bósnia, mas nunca visitei a Herzegovina

Quanto às formas do nome do país em causa, pode este ter todas as mencionadas na pergunta: 

Bósnia e Herzegovina – Cf. Portal das Comunidades (Portugal) e Portal Consular (Brasil);

Bósnia-Herzegovina – Cf. Código de Redação para o português na União da Europa;

– informalmente, pelo menos em Portugal, emprega-se simplesmente Bósnia (com artigo definido): «estive na Bósnia».

Sobre o uso de artigo definido com Herzegovina, não é este necessário quando se refere globalmente o país: «estive na Bósnia e Herzegovina». Se se empregar a forma hifenizada, usa-se só artigo definido correspondente a Bósnia: «estive na Bósnia-Herzegovina».

1 Note-se que no nome de uma das unidades políticas deste país ocorre o artigo definido: Federação da Bósnia-Herzegovina (cf.

Pergunta:

Em tempos de pandemia do coronavírus, espalha-se rapidamente na imprensa e redes sociais brasileiras as locuções concorrentes "álcool em gel" e "álcool gel". Qual das duas é a correta?

Além disso, seria possível a palavra composta "álcool-gel"?

Agradeço-lhes de antemão a atenção dispensada e rendo-lhes voto de saúde!

Resposta:

O tópico não é inequívoco, ou seja, não tem uma única solução.

A expressão «álcool em gel» está correta sem sombra de dúvida. O seu plural é «álcoois em gel».

Quanto a «álcool gel», não sendo obrigatória a hifenização, esta seria adequada, já que se trata da associação de dois substantivos: «álcool-gel».

O plural deste composto pode ser duplo, porque gel tem dois plurais, géis e geles:

(i) álcoois-gel = um tipo de álcool

(ii) álcoois-geis ou álcoois-geles = um produto que é ao mesmo tempo álcool e gel.

Como, neste caso, se trata de álcool e da forma como se apresenta –é álcool em gel – a forma de plural indicada em (1) parece a mais congruente com a realidade em referência.

Observe-se ainda que gel é uma palavra que tem origem no elemento de composição com a mesma forma:

«pospositivo, depreendido de gelatina (francês gélatine, italiano gelatina, donde o português), introduzido em 1864 por [Thomas] Graham para exprimir o estado gelatinoso de um coloide, por oposição a[o elemento] -sol [...], depreendido de solução, o que lhe permitiu constituir 'termos de formação irregular', a saber, hydrosol (hidrossol) e hydrogel (hidrogel), designando o último 'hidrato gelatinoso, de ácido silícico'; em português, a par do anteriormente citado, ocorre em: aerogel, argel, coagel, xerogel; notar também. que gel

Pergunta:

Em português de Portugal, devemos escrever «estar de quarentena» em vez de «estar em quarentena»? Qual dos dois o mais correto?

Antecipadamente grata pela vossa resposta.

Resposta:

Ambas as construções estão corretas, mas pode dizer-se que a forma mais enraizada no uso é a que exibe a preposição de – «estar de quarentena» –, tal como acontece com outros casos em que figura a mesma preposição: «estar de licença», «estar de férias», «estar de cama».

Acrescente-se, aliás, que «de quarentena» é a forma que figura como subentrada de quarentena em dicionários como o da Porto Editora (em linha na Infopédia), o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, Dicionário Houaiss e o dicionário da Academia das Ciências de Lisboa. Neste último, por exemplo, regista-se «de quarentena», e não «em quarentena», como locução adverbial com o significado de «em observação, à espera do desenrolar de uma situação», a que se juntam ainda as seguintes expressões:

«estar/ficar de quarentena. 1. Ficarem, viajantes ou mercadorias, isolados por quarenta dias, devido a suspeita de possível contágio de doenças oriundas de outros lugares. 2. Como medida de precaução ficar sob reserva.»1

«pôr de quarentena, pôr em observação, à espera, à espera de confirmação ou do desmentido de alguma coisa.»

Assinale-se, mesmo assim, que não está errado dizer/escrever «em quarentena», atendendo a que também ocorre «estar em férias» ou «estar em isolamento». Tendo em conta que «estar de quarentena» pode ser concebido como uma forma de «estar em isolamento», aceita-se, portanto, «estar em quarentena».

 

1 Anote-se que, no contexto da pandemia de coronavírus, se usa quarentena para referir um que período de isolamento que pode não chegar a 40 dias (ler

Pergunta:

Tendo em conta que o verbo testar é transitivo directo, isso não faz de «positivo» em «testar positivo"»o complemento directo?

Não me parece fazer sentido. Testa-se a pessoa, não o resultado, diria eu. Soa-me a um decalque do inglês "test positive for", mas encontram-se tantos exemplos na imprensa, que fico na dúvida.

Ficaria muito agradecido se pudessem clarificar esta questão.

 

O consulente escreve segundo a norma ortográfica de 1945.

Resposta:

A construção parece ser uma transposição do inglês: «he tested positive for steroids during the race» (= «ele teve resultado positivo no exame/análise (feito/feita) aos esteroides durante a corrida» – cf. Lexico.com). Este verbo é geralmente transitivo em inglês, mas também pode ele ocorrer como intransitivo com um "complemento" (conforme a classificação da fonte consulta; cf. idem, ibidem): «[no object, with complement] Produce a specified result in a medical test, especially a drugs test or AIDS test» (tradução livre: «[sem objeto, com complemento] Apresentar um dado resultado num exame médico, em especial, na deteção de consumo de drogas ou num exame à sida.»)

Trata-se de uma construção típica da língua inglesa e, à partida, não teria adaptação ao português. Contudo, a verdade é que, talvez, pela sua capacidade de síntese, este uso de testar, que é discutível, tem-se popularizado em português, tanto no Brasil como noutros países de língua portuguesa, incluindo Portugal.

Em português, não parece claro o processamento desta construção, o que talvez seja razão para, numa análise sintática e semântica, se aceitar que o verbo testar é tratado como o verbo abrir, que, além de transitivo («ele abriu a porta»), também pode ocorrer intransitivamente («a porta abriu/abriu-se»)1; além disso, positivo é interpretável adverbialmente, como «positivamente» (não se trata, portanto, de um complemento), ainda que o uso adverbial de adjetivos seja condenado por vários autores prescritivistas.

Note-se que, em português, entre as construções compatíveis com a ideia de «fazer um exame médico cujo resultado se revela positivo/negativo», se contam «alguém ter resultado positivo no exame ao coronavírus» (ou no Brasil «para o coronavírus», ou «o exame a [nome da doença] de X [p...